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Poética fina

Bruno Batista, tanto cá, quanto , um grande compositor brasileiro; o cantor lança novo álbum, hoje (30), no Teatro Arthur Azevedo

POR RICARTE ALMEIDA SANTOS*

Além do talento extraordinário como compositor, condição que o coloca entre os melhores dessa nova geração de compositores  brasileiros, Bruno Batista faz dessa sua capacidade criativa um outro talento especial.  A cada disco que lança, esse jovem cantor e compositor, se torna mais “incômodo” aos ouvidos já acostumados.

Quando, em 2004, recebi de suas mãos, o demo de seu primeiro disco, homônimo, confesso minha estranheza imediata ao ouvi-lo. Tudo parecia novo, estranho, diferente, uma poética, uma sonoridade que incomodavam. Admito, tive que escutá-lo diversas vezes até começar a assimilar os conceitos, a estética proposta, a poética fina do Bruno. O disco me tirou do lugar confortável, do mero entretenimento.

Sobre esse disco escrevi, na época, um artigo para o jornal Diário da Manhã, intitulado De Zeca Baleiro a Bruno Batista… ainda bem que ‘eu não ouvi todos os discos’. Aquele texto, que não tinha lá grandes pretensões, acabou por abrir um debate sobre a produção e o cenário da música popular no Maranhão.

Debate que me fez refletir mais sistematicamente sobre, numa dissertação, recentemente defendida no programa de pós-graduação “Cultura e Sociedade”, da Universidade Federal do Maranhão, sob o título Música Popular Maranhense e a questão da identidade cultural regional. Nada de extraordinário, mas trata-se de um esforço ensaístico de uma compreensão, das muitas possíveis, sobre a nossa música, buscando ir além do ufanismo que sempre fez parte do nosso discurso.

A música do Bruno é assim, nos coloca em movimento, nos faz refletir, além da beleza, do entretenimento que desperta.

Depois veio o Eu não sei sofrer em inglês (2011), seu segundo CD. Trabalho que inaugura a estada de Bruno Batista em São Paulo, após cinco anos morando no Rio.

Na capital paulista, trabalhando com novos parceiros e músicos, gente arejada e antenada como Guilherme Kastrup, Chico Salem, Marcelo Jeneci, Gustavo Ruiz, Rubi, Zeca Baleiro, Tulipa Ruiz, dentre outros, Bruno dá vazão a toda sua verve criativa. Percebe-se que o compositor, o poeta, o músico, enfim, o Bruno Batista criador respirou novos ares, ficou mais a vontade, sentiu-se mais em casa.

O ambiente cosmopolita de São Paulo definitivamente colocou Bruno Batista numa outra atmosfera criativa, em um novo ritmo de produção. Tanto é que o intervalo do segundo disco  – Eu não sei sofrer em inglês – para o terceiro – (2013) – , ambos feitos em São Paulo,  foi bem menor em relação à demora entre o primeiro – homônimo – e o segundo; depois, a concepção estética desses dois último CDs revelam a ambiência pluralíssima que a cidade de São Paulo suscita no jovem artista. Um mundo absurdo de influências, sonoridades, ritmos, novas tecnologias, ruídos, cores, movimentos e culturas.

São Paulo, um verdadeiro caldeirão multicultural que, ambientando um jovem poeta e músico talentoso e inquieto, ávido pelo novo, por vezes da ternura, noutras melancólico, mas também da alegria, originário de um Nordeste rico em tradições culturais, em ritmos, folguedos e referências musicais e poéticas consistentes, em permanente processo de ebulição cultural, lhe fornece alguns dos ingredientes e a temperatura necessários para um processo de criação instigante e provocador.

, assim como os outros dois primeiros, mas, mais parecido com o segundo, traduz esse perfil de um artista contemporâneo, um compositor do mundo, sem ter que abrir mão de suas ancestralidades identitárias, de suas cidades que são muitas e múltiplas.

Veja que Bruno canta coisas do seu chão, desde o primeiro disco até neste ,  mais recente, sem fazer uso de um discurso de exaltação. Elas aparecem com sutileza, numa palavra, numa rítmica, meio que incidental e, ao mesmo tempo, soando absolutamente natural, como se fosse o sotaque de sua música em conversa, que vez por outra insiste em aparecer, tornando o novo, que nos sugere, também algo familiar, que nos arrebata pelo toque de sutileza, originalidade e sofisticação.

Bruno Batista segue em inventando e reinventando formas, jeitos, versos e ritmos de abordar o que nos é universal e, por isso também, nos é identitário, posto que temos os pés cá, no chão, no terreiro, mas a cabeça , no mundo, no cosmos, que acontece em movimentação permanente pra cá e pra , sem uma determinação única.

SERVIÇO

O quê? Show de lançamento do álbum , do cantor e compositor Bruno Batista.
Quando? Hoje (30), às 20h30.
Onde? Teatro Arthur Azevedo.
Quanto? R$ 30 (plateia e frisa) e R$ 25 (camarote, balcão e galeria). Ingressos à venda no jornal O Imparcial (Renascença II), Bar do Léo (Vinhais) e na loja Play Som (Tropical Shopping).

*Ricarte Almeida Santos é sociólogo e radialista, gestor cultural e mestre em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal do Maranhão. É produtor e apresentador do programa Chorinhos e Chorões da rádio Universidade FM.

[texto publicado no caderno Impar, O Imparcial, hoje (30)]

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Max (se) Expressa (ou: A Igrejinha e a Via)

"Maquete visual" da Via Expressa

O pré-candidato de Roseana a prefeito de São Luís, Max Barros, tem na atropeladora construção da Via Expressa, também conhecida popularmente como “MA 171” ou “Via Max Expressa”, dentre outros epítetos criativos, seu mais importante cartão postal para alçar voo ao palácio La Ravardière.

Para isso, o pré-candidato e dublê de secretário não mede esforços. O corpo “técnico” da sua secretaria tem travado uma verdadeira guerra contra as comunidades atingidas, que bravamente resistem às investidas expressas da via. Algo ameaçador e violador de várias delas, existentes no trajeto da famigerada marginal.

Dentre elas, a centenária  comunidade do Vinhais Velho, cuja igrejinha completou mês passado 399 anos de existência, tem experimentado toda sorte de ameaças e intimidações.

Sem nehuma transparência e desconsiderando todas as medidas e exigências cautelares legais e da razoabilidade, a Via Expressa se impõe de forma arbitrária e violadora sobre aquela(s) comunidade(s) e sobre o Estado Democrático de Direito.

Max e Roseana tratorando a comunidade

Típico de uma cultura patrimonialista, próprio das oligarquias, se atropela a legislação, se violam os Direitos Humanos, se desconsidera a História em favor de interesses familiares, comerciais, restritos, eleitorais.

A última declaração de Max Barros, por ocasião da festa da FIEMA, quando Sarney foi o grande homenageado, dá a devida dimensão do desrespeito com que tratam as comunidades para atingir seus intentos.  

De uma ignorância lapidar, o pensamento Max do pré-candidato não vê no humano, na comunidade, na história dessa gente, o grande patrimônio a ser preservado. “Foi muito questionado o traçado por conta de, supostamente, passar sobre áreas tombadas pelo Patrimônio Histórico, mas isso não procede. Ao longo de toda a Via Expressa, apenas a Igreja do Vinhais é tombada, e permanecerá intacta” sentenciou o dublê de secretário.

399 anos de igreja e pessoas

É como se só o prédio da igreja, de cal e pedra, por si só, fosse  o único patrimônio a ser preservado. É óbvio que a Igreja é importante. Mas ela só é tombada como patrimônio histórico por que  faz parte de uma construção humana, de relações sociais construidas permanentemente no curso da História.

Em outras palavras, ela só é importante como patrimônio a ser preservado por que é fruto da ação humana destinada para o ser humano. Sua localização tem a ver com o traçado das ruas, representativo de uma época, um jeito de viver e se organizar, uma herança cultural com múltiplas e complexas dimensões: culto, celebração, festa, os antepassados, relações de parentesco, de amizade, de produção, relações com o meio ambiente.

Já é possível imaginar a cena: A Via (Max) Expressa passando toda imponente e aquela igrejinha isolada, deslocada, sem nada ao seu redor que lhe dê significado e sentido. Um ovo de dinossauro no meio da Via.

Assim se expressa a Max truculência, balizar!