Nove anos de saudades!

JURUCA, MEU MESTRE DO CHORO

JURUCA, O MEU MESTRE DO CHORO!*

por Ricarte Almeida Santos

O meu mestre do Choro não foi Pixinguinha, o mais notável de todos os chorões; também não foi Jacob do Bandolim, o mais preciosista dos mestres do Choro; muito menos Waldir Azevedo, o maior cavaquinhista de todos os tempos. Também eu não sou nenhum instrumentista de choro. Se quer arranho qualquer instrumento.

Meu mestre do Choro, assim como seu pupilo, também não tocava patavina, como ele gostava de falar. Mas foi com ele que eu aprendi a gostar de Choro. Foi ele quem me apresentou Jacob do Bandolim pela primeira vez. Foi com o meu mestre do Choro que eu conheci Pixinguinha, Zequinha de Abreu, Dilermando Reis, Saraiva, Noca do Acordeon, Nelson Gonçalves, Luís Gonzaga, Anísio Silva, Abdias, Marinês, Domingos Pecci e tantos outros mestres brasileiros da música.

Lembro com enorme saudade e uma pontinha de orgulho das inúmeras, incontáveis noites que adormeci ao som de “Saxofone, por que choras”, clássico do Ratinho. Nas minhas memórias de menino esse choro ficou imortalizado por Domingos Pecci, um dos saxofonistas preferidos do meu mestre . Outro choro que embalava minhas noites iluminadas à lamparina e candeeiro na pequena Santa Teresa do Paruá, foi “Lágrimas de namorados”, do já saudoso saxopranista Saraiva. O meu mestre adorava. Eu também. E ainda nem sabia.

Para acordar logo cedo, me recordo das notas e melodias de “Não me toques”. Música de Zequinha de Abreu, que lá em casa se ouvia ao som do mais cristalino dos bandolins, o de Jacob e seu Conjunto Época de Ouro. Claro, em LP, tocado em radiola Philips automática, à pilha, já que em Santa Teresa não havia energia elétrica.

Puxava-se o braço do pequeno aparelho para traz para ligá-lo e quando o grande disco começava a rolar no prato da vitrola, colocava-se a pequena agulha de cristal sobre o vinil e iniciava-se a audição dos meus primeiros choros. Ao terminar de tocar a última faixa de um dos lados do LP, a radiolinha desligava automaticamente. Para se ouvir as faixas do lado B por exemplo, virava-se o disco repetia-se a operação.

Assim lá em casa dormia-se ouvindo alguns dos mais belos choros sem a preocupação de ter que desligar o aparelho. Foi assim, dormindo e acordando, que aprendi a gostar dessa música. O Choro de vinil em radiola de pilha fez parte do meu sono, dos meus sonhos, do meu acordar cotidiano ao lado do meu mestre. Faz parte da minha vida.

Meu mestre se chamava Raimundo Natividade dos Santos. Para alguns, Raimundinho Juruca ou só Juruca. E era o meu querido Pai. Uma figura ímpar na minha vida, em todos os aspectos.

Juruca, além de grande pai, carinhoso, às vezes ríspido, portava-se, hoje posso ver, como um mestre do Choro para mim. Tratava com absoluto zelo seus LP’s.Toda vez que ia ouví-los era um verdadeiro ritual. Desde a escolha do disco, sua retirada da capa de papel e do plástico que o revestia, até a limpeza cuidadosa com uma espécie de esponja umedecida com um líquido especial, passada repetidas vezes em movimentos circulares sobre as faces do vinil.

Demonstrava conhecimento sobre os instrumentistas e compositores. Fazia comentários sobre eles. Gostava de atribuir títulos de nobreza a alguns. Para Juruca, Jacob era “rei do bandolim”. Saraiva para ele era “o rei do saxoprano” . Waldir Azevedo, “o rei do cavaquinho”. E assim o Juruca, o meu mestre do Choro, ia definindo verdadeiras monarquias instrumentais, que para mim serviram como parâmetros. Me ajudaram a perceber quem era quem no jogo dos instrumentos. Sempre tentava me convencer, e a todos, que o Choro era a nossa grande música. E eu fui acreditando nisso.

Outro costume curioso do mestre Juruca, acontecia quando aparecia alguém em sua farmácia ou em alguma roda de conversa se dizendo violonista, por exemplo. Para tirar a prova dos nove, Juruca exigia logo que o afoito tocasse “Marcha dos Marinheiros”, de Américo Jacomino. Para ele, uma música de difícil execução. Teste cabal para qualquer pretenso violonista. E caso contrário, o camarada estava desmoralizado como instrumentista.

Se o sujeito se dizia Sanfoneiro, aí desafio era outro. A ordem era tocar “Escadaria”, clássico do acordeon, de autoria de Pedro Raimundo. Se o dito instrumentista titubeasse frente à difícil Escadaria, pronto. Perdia a moral como acordeonista para Juruca.

E assim eu fui absorvendo essa música, cheia de beleza e de uma saudade inexplicável que eu não sabia do quê. E que agora, sem o meu mestre por perto, se explica. Eu já sei do que é aquela saudade que tem no Choro. Era a falta do meu mestre Juruca que eu já sentia antes mesmo de perdê-lo.

Se ouço “Saxofone, por que choras”, consigo ver seu rosto, cada detalhe, seu riso de dentes perfeitos de satisfação quando ouvia esse belo Choro. É o seu retrato chorístico. Vou emoldurar esse som e pendurá-lo no meu coração para sempre.

Daí também meu compromisso com o Choro, enquanto música, enquanto identidade, também como possibilidade de conquista e garantia de direitos. Portanto, a “tarefa” de difundi-lo entre os mais jovens, de partilhar com os mais pobres. Convencer também as outras pessoas que Choro é a nossa grande música. É também uma forma de me manter perto d’Ele, de diminuir a saudade que me faz triste.

Se o meu mestre do Choro fosse vivo, no próximo 8 de setembro faria 70 anos de vida. A mim restou a saudade, os ensinamentos e o “Chorinho de Herança”.

*Esse texto foi escrito e publicado neste blog há oito anos, pela passagem do dia dos pais.

 

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