Arquivo do mês: outubro 2008

DINO VERSUS ROCHA: ENTRE O NOVO E A ARROGÂNCIA


crédito da caricatura: www.conjur.com.br


crédito foto: http://www.johncutrim.zip.net


De todas as acusações que pesaram sobre o então candidato Flávio Dino nessas últimas eleições, passada a disputa pela prefeitura de São Luís, duas parece que vão continuar batendo à sua porta pelo menos até outubro de 2010. A primeira, de ser um autêntico representante do grupo Sarney; e a outra, de ser um sujeito arrogante.

Cabe, no entanto, a bem da verdade, para verificar a legitimidade e autenticidade ou não de tais afirmativas, saber quem fala e de onde fala. Qual o dono – ou os donos – desse discurso; e o lugar de onde falam; ou, pelo menos, melhor discutir histórico e politicamente os incômodos adjetivos que lhe foram e são emprestados compulsoriamente.

Talvez nesse esforço dê até pra enxergar um sujeitinho novo de idade, de bochechas rosadas, bem criado, sentado numa “preguiçosa” na varanda de sua fazenda, dando ordens aos seus subservientes capatazes. Poderia até ser, quem sabe, uma cena típica brasileira dos anos 20 ou 30 do século passado, pintada em tela por Cândido Portinari, um dos expoentes do movimento Modernista Brasileiro que, rompendo com o padrão clássico europeu das artes, pintou grandes quadros e painéis, expostos mundo afora, retratando cenas e personagens do cotidiano brasileiro da primeira metade do século XX.

Um coronelzinho soberbo. Roberto Rocha, herdeiro das proezas políticas de seu genitor, que fora também talhado para ser governador na outra casa grande, a da capital como leal seguidor do coronel maior, o compadre José Sarney.

Imagine os gestos de camaradagens típicos do coronelismo prolongado do Maranhão. As juras de lealdade eterna. As crianças se confraternizando em aniversários, festas, nos corredores do Calhau e dos Leões ou até mesmo em Brasília; nos pegas noturnos, nas então acanhadas avenidas e ruas de São Luís. Foi um tempo feliz para aquelas crianças, Zequinha, Robertinho, Fernando, Rochinha, Roseana. Foi assim nesse universo familiar da oligarquia maranhense que foi forjado o “novo” e “humilde” deputado Roberto Rocha.

Outro quadro importante na sua configuração e aprendizado político foi o governo de seu Pai, do qual o próprio Roberto se orgulha de ter sido um exemplo de lealdade não recíproca ao Coroné Sarney. Donde se conclui que seu odioso rompimento com sua raiz genealógica-política central, tenha sido mais em função de contrariedades doméstico-familiares do que propriamente fruto de descontentamento com o futuro do Maranhão.

Quando tentamos lembrar das marcas do Governo Luíz Rocha para o desenvolvimento do Maranhão, o que nos vem à mente é que foi um momento de grande truculência policial. Foi o período de maior crescimento da grilagem no estado; de maior repressão aos trabalhadores rurais e defensores da reforma agrária, inclusive de lideranças religiosas. Recordo que os bispos do Maranhão por unanimidade, liderados por D. Paulo Ponte, excomungaram a dupla do terror, o governador Luiz Rocha e seu inominável secretário de segurança Coronel Silva Júnior.

Outra marca significativa desse período foi o enriquecimento injustificável de algumas poucas famílias do Maranhão, que sem nenhum grande empreendimento anterior aquele governo, imediatamente após, emergem com vultosos patrimônios, que vão de grandes fazendas, complexos de comunicação, imóveis urbanos comerciais, concessionárias de automóveis, dentre outros. Alguns amigos próximos após aquele governo se tornaram expoentes da agropecuária nacional. E o Maranhão bem mais pobre. É essa a cultura política do “novo” tucano Roberto Rocha.

Sua visão econômica provinciana, direitista e obediente ao tucanato paulistano é simplesmente defensora do estado mínimo, da corriola da especulação, como o financiador-mor do PSDB, Daniel Dantas. Gente desse mesmo calibre que gerou a atual crise econômica mundial. Rocha é representante periférico dessa visão que submete o trabalho e a produção à especulação, que submete o público à lógica privatista. Para essa gente, políticas sociais significam gastos. “Temos que enxugar a máquina” é a cantilena. Responsáveis que são pelo aprofundamento abissal da desigualdade no Brasil depois dos oito anos de FHC.

O resultado das eleições em São Luís parece que antecipa o debate sucessório de Jackson Lago. É impressionante, após a revelação das urnas, a quantidade de cartas, artigos, notas nos jornais, em blogs, continuando o processo de desconstrução da imagem do ex-juiz federal e agora deputado Flávio Dino. A emergência de Flávio Dino como provável unificador do campo popular e democrático, chamado de esquerda, parece ter mexido com os interesses e brios coronelescos de Roberto Rocha, que se acha na fila há mais tempo.

Até militantes históricos das lutas democráticas, combatidos por Castelo e os Rocha em muitas frentes de batalhas pelos Direitos Humanos, inclusive com sangue derramado, com vidas ceifadas, se escondem no dito anti-sarneysismo, a vergonha de ter votado obedientemente em Castelo. Alguns nem a tem, mostram a cara com garbo e galhardia, como num velho desfile das tropas militares. Tudo justificado pelo combate à oligarquia.

Será que não compreendem que oligarquia não se resume a uma única família ou grupo, mas a um conjunto de práticas, que infelizmente não foi banida? As diferentes oligarquias regionais e locais que antes estavam juntas em um só bloco hegemônico lideradas pelos Sarney, se reaglutinaram em outro ramo, havendo uma fragmentação e um reordenamento dos grupos oligárquicos. Mas as práticas continuam as mesmas.

Dino também pegou a pecha de ser um sujeito arrogante. Alguns até o compararam a Collor de Melo. Triste ironia do destino. Quem sempre esteve com o arrogante Collor até o melancólico fim do seu desastroso governo foi João Castelo. Flávio Dino estava com Lula desde sempre, em todas as campanhas. Do lado das lutas populares, pelos Direitos Humanos, pela Democracia, na defesa dos trabalhadores, contra Collor. Qual então é mesmo a verdadeira arrogância, o real sentido materializado da arrogância?

Ter altivez, ser preparado para o debate, não se curvar ante aos poderosos, saber argumentar técnico e politicamente, é sinônimo de arrogância? Ter boa atuação nos espaços e cargos públicos que ocupou? É essa a arrogância de Flávio Dino?

Ou qual será a arrogância violenta física e simbolicamente? Quem se acha portador do direito de se apropriar das riquezas públicas?, de enriquecer quando está no governo, de massacrar e criminalizar movimentos sociais? Quem se acha no direito de ser organizador da fila do exercício do poder? Não seria esse o real e concreto sentido da arrogância? Disso tem pássaro “novo” do bico grande que entende muito bem.

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SENHORAS E SENHORES, CAREQUINHA NO CHORINHOS, É SÓ ALEGRIA

HÁ DUAS SEMANAS, POR OCASIÃO DO DIA DAS CRIANÇAS, APRESENTEI NO PROGRAMA CHORINHOS E CHORÕES (RÁDIO UNIVERSIDADE FM) DOIS BELOS DISCOS DE CHORO E SAMBA DEDICADOS AO PÚBLICO INFANTIL. SURPREENDENTEMENTE O PROGRAMA RECEBEU INÚMEROS TELEFONEMAS E MENSAGENS ELOGIOSAS DO PÚBLICO ADULTO.

JÁ QUE AINDA ESTAMOS EM OUTUBRO, O MÊS DAS CRIANÇAS, E ATENDENDO AOS MUITOS APELOS QUE RECEBÍ POR TELEFONE E E-MAIL, CAÍ EM CAMPO PRA PESQUISAR SOBRE UM PALHACINHO QUE FEZ (E FAZ) PARTE DA MINHA INFÂNCIA E DE MILHARES DE OUTRAS PESSOAS EM TODO O BRASIL. O FAMOSO PALHAÇO CAREQUINHA. O MAIOR PALHAÇO BRASILEIRO.

QUEM NÃO LEMBRA DESSA FIGURA LÚDICA QUE POVOOU O IMAGINÁRIO DE MUITAS CRIANÇAS EM UM PASSADO NÃO MUITO DISTANTE? SUAS MARCHINHAS, CANTIGAS DE RODA, CANÇÕES DE NINAR, SUAS LETRAS CHEIAS DE MENSAGENS QUE DESTOAM, SEM DÚVIDA , DAS MÚSICAS E PROGRAMAS INFANTIS DE APELO CONSUMISTA DE HOJE. MAS É ISSO. OS TEMPOS MUDAM E MUITOS VALORES SE DISSOLVEM. O MERCADO PASSA A DITAR AS REGRAS E FORJAR OS GOSTOS DO POVO, DE MANEIRA CADA VEZ MAIS VORAZ.

ASSIM, MUITAS FIGURAS, PERSONAGENS QUE FIZERAM PARTE DE NOSSA HISTÓRIA, DE NOSSAS LEMBRANÇAS, DE NOSSA FORMAÇÃO ACABAM CAINDO NO ESQUECIMENTO. PARA O MERCADO, OS PRODUTOS NECESSÁRIOS SÃO OS DESCARTÁVEIS, QUE RODEM COM MAIOR VELOCIDADE NAS GÔNDOLAS DAS LOJAS, DA TELEVISÃO.
ARTISTAS COMO CAREQUINHA, CHICO BUARQUE, PAULINHO DA VIOLA , DENTRE OUTROS, SÃO CONSISTENTES. SUAS OBRAS INFLUENCIAM GERAÇÕES E GERAÇÕES. SÃO ATEMPORAIS.

DOMINGO, O CHORINHOS E CHORÕES VAI RELEMBRAR ESSE GRANDE MESTRE DA ALEGRIA, O SAUDOSO PALHAÇO CAREQUINHA. GRANDES CLÁSSICOS DO CANCIONEIRO POPULAR INFANTIL COMO, ATIREI O PAU NO GATO, PASSA-PASSA GAVIÃO, TERESINHA DE JESUS, ONDE ESTARÁ A MARGARIDA, GARIBALDI FOI À MISSA, E MUITOS OUTROS, SERÃO TOCADOS NO PROGRAMA.

CAREQUINHA SE CHAMAVA JORGE SAVALLA GOMES, E COMO ELE MESMO SE DEFINIA, “ERA MAIOR DE IDADE, CASADO, PAI DE TRÊS FILHOS, RESIDIA NA RUA SÃO GONÇALO EM NITERÓI, E PRÁ SEU GOVERNO, CORTAVA CABELO DE 15 EM 15 DIAS”, PALAVRAS DO PRÓPRIO CAREQUINHA.

CAREQUINHA, NASCEU EM 1915, INICIOU SUA CARREIRA NO CIRCO, TRABALHOU NO RÁDIO, NA TV TUPY E NA ITACOLOMI. NOS ANOS 50 E 60 FOI A SENSAÇÃO DA MENINADA NO CIRCO, NO DISCO E NA TV. FAZIA A ALEGRIA DE CRIANÇAS DE 5 A 80 ANOS. MORREU RECENTEMENTE EM 2005, AOS 90 ANOS, DEIXANDO UMA CONTRIBUIÇÃO ENORME NO IMAGINÁRIO LÚDICO DA CRIANÇADA BRASILEIRA.

MAS SUA LEMBRANÇA É DE PURA ALEGRIA. SUA MÚSICA É FESTA, SEMPRE, ONDE FOR TOCADA. ASSIM ERA O PALHAÇO CAREQUINHA.

AS MÚSICAS DO CAREQUINHA TÊM ACOMPANHAMENTO TODO FEITO POR UMA BANDINHA, DE MODO QUE NOS LEMBRAM AS RETRETAS DOS CORETOS DAS PRAÇAS DAS PEQUENAS CIDADES, OS CIRCOS COM AQUELES DOBRADOS E MARCHAS QUE ANUNCIAM O ESPETÁCULO.

É BOM LEMBRAR QUE AS BANDINHAS MARCIAIS FORAM QUASE SEMPRE AS GRANDES FORNECEDORAS DE MÚSICOS DE SOPRO PARA O UNIVERSO DO CHORO. OS NOSSOS GRANDES SOPRISTAS COMO PAULO MOURA, SILVÉRIO PONTES, SEVERINO ARAÚJO, ALTAMIRO CARRILHO, QUASE TODOS TÊM SUA ORIGEM NAS BANDINHAS.
ESSE É O DETALHE, A BANDA QUE ACOMPANHA O CAREQUINHA NOS DISCOS QUE TOCARÃO NO PROGRAMA DESTE DOMINGO – E QUE O ACOMPANHOU EM QUASE TODOS OS SEUS DISCOS – É A BANDINHA DO MAESTRO E FLAUTISTA ALTAMIRO CARRILHO. UM DOS MAIS IMPORTANTES CHORÕES DE TODOS OS TEMPOS E QUE, COM QUASE 90 ANOS, ESTÁ EM PLENA ATIVIDADE CHORÍSTICA. E AÍ, NAS MÚSICAS DO CAREQUINHA, VEZ POR OUTRA, SE SOBRESSAI O VIRTUOSISMO DO MESTRE CARRILHO EM BELÍSSIMOS SOLOS DE FLAUTA.
SENHORAS E SENHORES, TENHO O PRAZER DE ANUNCIAR UM GRANDE ESPETÁCULO, COM VOCÊS, O PALHAÇO C A R E Q U I N H A A A A!!! É SÓ LIGAR NA 106 E OUVIR. DOMINGO, 9h, NA UNIVERSIDADE FM.

“ESTUDE PARA AJUDAR SEU POVO”

Esta é a frase que me persegue – no melhor dos sentidos – por todos os lugares por onde vou e em tudo que faço. Ela estava escrita em letras garrafais em todas as salas de aula na escola que estudei lá em Santa Teresa do Paruá, na pré-amazônia maranhense. Não se tratava de uma mera frase de efeito, como é muito comum se ver por aí.

Dizia respeito ao caráter da escola. Uma escola que surgiu em plena época da ditadura militar, mas já em um período de ares de conquista da democracia. Diretas já, Anistia, Constituinte, enfim, um novo horizonte começava a surgir.

Mas eu era ainda muito jovem. Tinha apenas dez anos de idade quando começamos a participar de algumas discussões políticas puxadas pelo padre Diniz, um português baixinho e barrigudo – só não tinha o bigode típico do patrício dono de padaria – obcecado por justiça e trabalho, e por Eliane e Aécio, casal de jovens educadores que, oriundos de São Luís, fincaram pé em Santa Teresa a convite do Padre.

Eles nos faziam descobrir que aquela realidade pobre e sofrida daquele pequeno povoado perdido no meio da, então ainda existente, amazônia maranhense, não era fruto do acaso, nem da vontade de Deus; que a falta de escolas, de saúde, de alimentação, de terras para produção eram fruto sim da negação dos direitos que todos tinham. Portanto, não poderíamos aceitar como normal, parte da paisagem.

A idéia era fazer um trabalho de educação transformadora. A comunidade foi, então, convencida que o primeiro passo seria a construção de uma escola pelos próprios moradores. Mas não seria uma escola qualquer, era preciso ser uma escola com a cara, com a identidade do povo.

E não é que conseguimos construí-la! Da primeira pedra até a última telha. Tudo em regime de mutirão, de união, de ecumenismo. Foram sábados e sábados de trabalho coletivo, com a animação e com a paixão de quem estava construindo um novo rumo, uma nova realidade sustentada na cooperação, na educação, na co-responsabilidade e na conquista do direito.

Foi sem dúvida um dos capítulos mais belos e importantes da minha vida. A Escola, em homenagem à padroeira do lugar, passou a se chamar Colégio Santa Teresa. Era linda. A gente contava os minutos para chegar a hora da aula. Nós tínhamos excelentes professores. Todos selecionados com critérios de competência e compromisso com a educação.

O caráter do ensino era ensinar sobre a vida. O grande valor que aprendemos foi o da mobilização para conquista e garantia dos direitos. Daí que, além das lutas locais por educação e reforma agrária, ainda que muito jovens, participamos ativamente das grandes mobilizações nacionais pela redemocratização do país. Abaixo a ditadura, Anistia aos exilados e presos políticos, Diretas já, Constituinte foram algumas das grandes bandeiras que já empunhávamos em Santa Teresa do Paruá.

Hoje, do lugar que estou, naquilo que faço, em todos os papéis que desempenho não consigo esquecer aquele slogan: “Estude para ajudar seu povo”. Consigo até visualizar a parede com as letras recortadas em cartolina guache coladas acima do quadro negro de frente para os alunos.

Entendo que aquela frase para mim, que também sou fruto da realidade desigual que assola este Maranhão de oligarquias, mandonismos, corrupção, de latifúndio, dos grandes projetos e, por conseguinte, da negação e violação dos Direitos Humanos, tem o mais profundo sentido de ser.

“Estude para ajudar seu povo” passou a significar pra mim, participar conjuntamente de reflexões sobre esta complexa e contraditória realidade em que vivemos, que exige comprometimento e capacidade de mobilização social para efetivação dos Direitos na vida das pessoas. Este é o caminho que tentamos construir, sempre.

FLORES NO FOGO

Joguei flores
no fogo
soprei cinzas
nos olhos
pra chorar
sobre brasas
que apagam
apagam
morrem