Arquivo do mês: setembro 2008

O PROJETO CLUBE DO CHORO RECEBE: 50 EDIÇÕES – A CAMINHO DA NOVA MÚSICA E DA ECONOMIA DO CHORO

Robertinho Chinês, garoto prodígio. A nova cara do Choro.
foto: Ivo Segura

por Ricarte Almeida Santos*

Para falar a verdade o projeto Clube do Choro Recebe que, dia 1º. de setembro, completou um ano de atividades e 50 sábados de saraus musicais (dia 20), pretendia ser somente um encontro de poucos amigos ligados ao choro, para aquelas gostosas confraternizações de final de semana. Nada de grandes ambições.

Ocorre que a regularidade dos encontros lá no Chico Canhoto foi exigindo mais dos músicos chorões a cada sábado. Já não bastava fazer do mesmo jeito da semana passada. Era preciso inventar no arranjo, renovar o repertório, trazer um convidado e a coisa foi se ampliando.

Até que em um desses sábados, aquela roda de choro simples, ainda sem som, já tinha um bom público, que se esforçava pra ouvir os sopros do mestre da flauta Serra de Almeida, as baixarias do sete cordas de Solano, os solos do cavaco de Paulo Trabulsi, o pandeiro preciso de Zé Carlos, as vozes boêmias dos Léos Capiba e Spirro e Zeca do Cavaco. Tudo feito em um canto recuado do amplo salão do Canhoto, como se fosse uma coisa fechada.

Mesmo assim, as pessoas que ficavam sabendo dessa reunião semanal de músicos compareciam para tomar sua cerveja, embaladas por aquela bela sonoridade de poucos decibéis.

Com isso os músicos perceberam a necessidade de uma estrutura de som mínima, que pudesse se sobrepor ao burburinho crescente à cada sarau. O violonista Solano adquiriu um sistema de som de alta tecnologia, que consistia em uma fina caixa de som, de pouco mais de 15 cm de largura e cerca de 1,5m de altura e uma caixa baixa, responsável, imagino eu, pela sonoridade grave do sistema. Coisa precisa, de belíssima qualidade sonora, que logo ficou pequena, diante do aumento do número de freqüentadores. Era preciso mais.

A gota d’água foi quando resolvemos receber e homenagear o compositor mineiro Paulinho Pedra Azul naquele espaço. O público foi estupendo. Fãs do artista, chorões, jornalistas, intelectuais, curiosos, músicos diversos, foi um deus nos acuda. Mesmo contratando um som um pouco maior, ainda assim foi insuficiente. O ato de receber Paulinho Pedra Azul acendeu a lâmpada para a necessidade de algo como o projeto Clube do Choro Recebe.

Seria a oportunidade de dar maior visibilidade ao choro do Maranhão: abrir espaço para novos chorões e para o diálogo com outras vertentes musicais, para o intercâmbio com outras praças.

Mas aí era preciso um aprimoramento. Uma melhor organização, uma produção mínima que fosse, criar espaço na mídia, tematizar os saraus de cada sábado, remunerar os músicos e os profissionais envolvidos, enfim, reinventar tudo aquilo. Tarefa coletiva, que vem sendo buscada e construída por todos. Músicos, instrumentistas, compositores, cantores, técnicos de som, fotógrafos, cinegrafistas, colaboradores, o proprietário do espaço, produtores, pesquisadores, jornalistas e apreciadores.

Um ano depois, já são 50 encontros musicais de rica pluralidade, para ser redundante. Criou-se uma cena instrumental chorística na Ilha; uma expectativa semanal sobre o que vai rolar dessa vez no Clube do Choro; criou-se uma movimentação dos músicos e instrumentistas como jamais se viu por aqui; surgiram outros grupos com inovadoras propostas musicais; revelaram-se novos talentos da música instrumental; o choro se abriu para o diálogo com a diversidade musical do Maranhão e do planeta; o projeto já ensejou até novas propostas estéticas para o choro do Maranhão.

O Brasil instrumental hoje tem notícia da força do Choro em São Luis. Regional Tira-Teima, Instrumental Pixinguinha, Chorando Calado, Instrumental Um a Zero, Regional Urubu Malandro, Choro Pungado, Os Cinco Companheiros, Quinteto Bom Tom são alguns dos grupamentos instrumentais, que junto com os artistas convidados de cada sábado, fazem do Clube do Choro Recebe um projeto da pluralidade musical.

Tudo isso sem falar do aspecto econômico dessa singela iniciativa, que conta com pouquíssimos parceiros. Alguns com módicas, mas indispensáveis, contribuições. Sem eles seria bem mais difícil.

Em cinqüenta reuniões semanais foi possível distribuir diretamente cerca de R$ 30.000,00 (trinta mil reais) em cachês; aproximadamente R$ 15.000,00 (quinze mil reais) de sonorização; R$ 6.400,00 (seis mil e quatrocentos reais) de assessoria de imprensa e produção, perfazendo um total aproximado de R$ 51.400,00 (cinqüenta e um mil e quatrocentos reais).

Direta e indiretamente a cadeia produtiva do choro melhorou a renda de comerciantes; dos garçons envolvidos (sete, contando com o churrasqueiro), de taxistas, que aos sábados já instalaram um posto nas imediações (principalmente após o advento da Lei Seca); de flanelinhas, que também já se implantaram por lá nas noites de choro; fornecedores de mesas e cadeiras, de bebidas e alimentos; o ECAD, que recebe com regularidade as taxas referentes aos direitos autorais, enfim, algo que extrapolou qualquer previsão inicial.

Sabemos que tudo isso é muito pouco, mas já é um sinal de que é possível, se feito com maior profissionalismo, credibilidade e solidariedade, ampliar esse alcance cultural, estético-musical, identitário e até econômico de um gênero/movimento musical até pouco tempo meio que negligenciado por estas bandas. Este é ainda o nosso grande desafio.

Isso é o que conseguimos verificar só no âmbito do projeto Clube do Choro Recebe, e ainda sem as lentes precisas de uma avaliação mais profunda. É, por que depois deste projeto, o choro passou a fazer parte das opções de lazer e de geração de trabalho e renda em quase todas as noites e em diversos espaços da nossa capital.

E aí esses números são bem mais relevantes. Os resultados artísticos/estéticos serão já verificados na nossa produção musical, na direção de uma nova música.

Salve o Choro na Ilha, há muito um traço – invisível, embora não inaudível – da identidade musical do Maranhão. Que o digam – que nos toquem – a música de Vieira, Teixeira, Josias, Bogéa, Saldanha, Maranhão (o Chico), Sinhô, Joaquim, Turíbio, Bibi, Alô Brasil, e outros e outros desde Antônio Rayol.

*Ricarte Almeida Santos é sociólogo e radialista. Produtor do Clube do Choro Recebe, apresenta o programa Chorinhos e Chorões, às 9h das manhãs de domingo na Rádio Universidade FM, 106,9MHz (http://www.universidadefm.ufma.br/). Escreve no blogue http://ricochoro.blogspot.com/