Arquivo do mês: agosto 2009

Choro, músicas, identidades, aldeias, colônias e planeta

A propósito do que ocorre com o projeto Clube do Choro Recebe, que amanhã, dia 1º/09, completa dois anos de atividades ininterruptas, como espaço do diálogo do Choro, essa grande vertente da música brasileira, com a diversidade da música do Maranhão e do planeta, travei uma conversa bem informal, via e-mail, com um importante músico amigo. Penso que pode render outras reflexões em torno desse tema: Músicas, identidades, aldeias, colônias e planeta. Segue aí, por sugestão de outros amigos, que acompanharam o papo virtual, a mais recente mensagem que lhe enviei.

Obrigado por suas palavras de incentivo. Concordo com você, também acho que as artes e as culturas são bens de todos, dos povos. Nós, agentes culturais, artistas somos instrumentos articuladores, processadores dessas riquezas coletivas do jeito de ser dos povos do planeta. E mais, em um país e em um estado pobres como os nossos, a nossa produção artísitica deve estar também a serviço da inclusão, a nossa postura deve ser de acessibilidade dos mais pobres e humildes a seus direitos.

Os nossos projetos devem sempre ter também esse viés. Também acho que não há arte, música ou cultura superior. O que existe na maioria vezes é que se submete as artes/culturas aos interesses massivos/lucrativos do mercado. Aí nivela por baixo. São os chamados fenômenos de venda. Aí sim ocorre a degeneração, a pasteurização da arte e da cultura, como estamos assistindo com o forró, com o sertanejo, com o pagode, etc.

Acaba virando coisa descartável, sem moradia pro belo, pro artístico. No mais, penso que tanto o choro, como o jazz, o baião, o tango, a salsa, o fado, enfim, são grandes músicas, grandes linguagens musicais estruturantes, dos diferentes povos do planeta. Elas dialogam com as novas informações, se misturam entre si, são grandes matrizes, precisam ser cultuadas e valorizadas.

São todas patrimônios universais. Sem donos, nem superioridades de ninguém. O que ocorre é que, como somos um país colonizado por americanos e europeus, botaram na nossa cabeça que temos uma arte, uma cultura, uma música inferiores; que a boa, a superior, é a deles. E muitos de nós acreditamos.

Em resumo: a deles é boa, é ótima, nós gostamos. Mas a nossa também é rica, é autêntica, é moderna e aberta a fusões, a trocas, enfim, é original de nosso povo. Nós devemos ter orgulho da nossa música. Ela faz parte das nossas identidades. Só assim o mundo nos respeitará. Sobre os ruídos que houveram, são mal entendidos, interpretações, forças de expressão que acabam produzindo incompreensões.

Vejo que estamos no mesmo barco, empenhados na valorização e abertura de espaço para a música instrumental brasileira, mas com a cabeça aberta ao planeta e com o pé no terreiro do Maranhão.

Esperamos em breve, tê-lo no Clube do Choro, tocando nossa música, claro, com todas as influências e informações que você bebe no mundo. Um grande abraço, com admiração.

Ricarte

Ricarte Almeida Santos, um craque de seleção


seleção de Santa Teresa do Paruá – f oto: arquivo familiar

Quando, em rodas de amigos mais chegados vendo jogos na televisão e diante de uma jogada mais plástica dos nossos craques de seleção, como Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo ou Robinho, digo que também já vivi momentos de glória no futebol jogando por uma seleção, todos riem da minha cara, como se isso fosse algo absolutamente iverossímel. Mas é a mais pura verdade.

Há muito que pesquiso em busca de prova material do que falo. Finalmente pesquei nos meus alfarrábios uma única foto perdida em meio a centenas de outras relíquias familiares. Acho que esta raridade (postada acima), além de provar os meus áureos tempos futebolísticos, finalmente entrará para a história do nosso futebol.

Durante quase toda a década de 80 e um poucquinho no início da de 90, foi o período em que desfilei toda minha habilidade e artilharia pelos gramados de Santa Teresa do Paruá, hoje infamemente chamada de Presidente Médice. Todo o meu repúdio. Alí na BR 316, entre Zé Doca e Gurupi. Toda aquela região foi testemunha do grande artilheiro que fui: um matador.

Naquela época, lembro, tomado de emoção, as muitas vezes que adentrava ao campo de jogo aclamado pela torcida como esperança de gol. Em campo a expectativa da torcida se confirmava. Transformava a esperança dos tercedores em gols. Cada um mais belo que o outro, cheios de efeito e plástica. Verdadeiras obras de arte.

Recordo dos muitos clássicos disputados na região do Alto Turí. Santa Teresa x Maranhãozinho, um clássico de grande rivalidade, algumas vezes a partida terminava no tapa; ou ainda Santa Teresa x Macaca(hoje chamado de Bom Jesus da Mata), numa partida memorável, histórica, estufei as redes quatro vezes e saí de campo nos braços da torcida, direto para o boteco mais próximo (a foto acima é daquele dia) ; Santa Teresa x Santa Luzia do Paruá, esse era o clássico das multidões e era tomado de máxima rivalidade e exigia segurança reforçada e observadores da FIFA (no caso bem poderia ser Federação Interiorana de Futebol Association). Poderíamos lembrar aqui outros muitos clássicos regionais como Santa Teresa x Mucura ou ainda Santa Teresa x Quatro Bocas, enfim, foram muitos os momentos de Glória pela imbatível seleção de Santa Teresa do Paruá.

Quero partilhar com meus leitores um pouco dessa época de ouro que vivi como craque de seleção, conforme a foto aí tão bem atesta. Quando vejo o meu Vasco da Gama hoje, cheio de pernas de pau, patinar na segundona, tenho vontade de entrar em campo e mudar os rumos da partida. Infelizmente a distância e os anos já não permitem. Mas vai aí a escalação da Seleção em que figurava como grande craque e goleador.

Em pé, da esquerda para direita: Moisés, Antonio Raimundo, Raimundim de Dona Rita, Dilso do Bié, Bernadim, Gimarães e Claudianor (técnico – já falecido); agachados: Ricarte, Gogó, Pedro, Felício (já falecido), Lico e Ciço. Era um escrete de ouro.