O Bar do Léo ameaçado de sumir do mapa


foto: Rivânio Almeida Santos

As cidades sempre têm alguns recantos boêmios onde os intelectuais, artistas, políticos e cidadãos/ãs comuns se encontram para bate-papo e outros fins. São músicos interessados em novidades na área, poetas em busca de inspiração, artistas plásticos, pensando as tendências e mudanças na estética artística, articuladores políticos, que se encontram na costura de seus acertos e conchavos. Pessoas simples, trabalhadores que se encontram para uma boa conversa de amigos, ouvir uma música rara ou antiga.

Todos, quase sempre, também interessados em degustar uma boa cerveja, quitutes e outras iguarias. De modo que alguns desses espaços fazem parte da vida das cidades de forma muito marcante. Assumem um valor simbólico e de interação social e cultural que extrapola o mero conversê, a mera bebericagem tão comuns nesses recantos. Incutem novos valores, novos padrões culturais, agregam valor a um bairro e até a uma cidade.

No Maranhão poderíamos lembrar de vários cantos assim com essa simbologia e significação. Um dos mais importantes, algumas décadas atrás, a Movelaria Guanabara, na Rua do Sol, cumpriu um papel destacado no campo das artes pláticas. Os encontros, debates e exposições que lá ocorriam serviram para incutir novos rumos nas artes plásticas do Maranhão.

O Moto Bar, no Largo do Carmo, também teve seus momentos de glória como espaço charmoso de boemia e grandes encontros.

Mais recentemente, há pelo menos 15 anos, o Bar do Léo, no Horto do Vinhais, antiga Cobal, vem cumprindo um papel da maior relevância para aquele entreposto, uma vez que o charme e o zelo do espaço agrega um valor extraordinário àquele mercado. O único horto em pleno funcionamento ainda em São Luís. Em parte, em função do papel chamativo que aquele Bar exerce alí. O Bar do Léo, hoje não é só um bar, ou ponto de encontro de amigos. Vai muito além.

Hoje aquele espaço cumpre um papel que nem mesmo o Estado por aqui tem cumprido. Um espaço de preservação e inovação artístico-cultural. É, são coisas complementares, indissociáveis, apesar de alguns acharem que são inconciliáveis. O Bar do Léo reúne seguramente o maior acervo de música brasileira do Maranhão, quiçá, do Brasil, entre relíquias em milhares de fitas k7, LP’s, 78 rotações, rolos e cd’s, e lançamentos da fina flor da nossa música. E nesse aspecto o Léo é exigente.

Expõe em suas paredes, tetos e prateleiras, entre centenas de fotografias, gravuras e outras pinturas, uma plural coleção de peças e apetrechos da rica cultura popular brasileira e maranhense. Objetos da cultura indígena, quinquilharias do cotidiano do homem do campo, coisas da floresta, como cipós, vagens e outras espécies raras.


foto: Fafá

Tudo isso convivendo em perfeita conciliação com objetos e exemplares do avanço tecnológico e comunicacional do homem. São antigos e diferentes modelos de telefones; rádios e televisões dos mais variados formatos e épocas; velhas vitrolas, desde gramophones, pequenas radiolas philips à pilha, outras de inúmeros modelos e marcas, até exemplares mais modernos, nos quais Léo toca seus cd’s, para o deleite de seus frequentadores.


foto: Rivânio Almeida Santos

E não é só. Não dá para lembrar e descrever à distancia a diversidade do rico acervo cultural daquele belo museu.

O Bar do Léo é hoje um espaço de encontro, enriquecimento cultural e artístico e até de compreensão do desenvolvimento histórico de nossa gente. E isso não é pouco. É tanto que aquele aprazível logradouro musicultural já foi objeto de várias matérias e reportagens locais e nacionais. Algumas das mais importantes revistas e televisões nacionais ja noticiaram o Bar do Léo como algo de um valor ímpar e de profundo significado para a nossa cidade e estado.

Pois não é que agora, movido por não sei lá quais interesses, o governo do Maranhão decidiu não mais renovar o contrato de cessão e uso do espaço onde funciona o referido museu, digo, Bar do Léo?

O ocupante do pomposo cargo de “Supervisor de Gestão de Bens Terceirizados”, da Secretaria de Estado de Administração e Previdência Social, acatando parecer de um Procurador do Estado, Raimundo Soares de Carvalho, está procedendo os encaminhamentos para a efetivação da retirada do Bar do Léo e a consequente licitação do Espaço. Argumentam que o Bar do Léo foge às finalidades contratuais/estatutárias, sei lá o quê.

Leia trechos do parecer do douto Procurador: “(…) contrários à prorrogação (…) e recomendamos que à Administração (…) promova a recisão de contrato (…) instaurando a seguir procedimento licitatório para transferência da posse do imóvel (…)”.

Esse legalismo morto, sem sentido para a vida e para a cultura, que pode até mesmo inviabilizar o horto-mercado do Vinhais, aparentemente pode parecer algo direcionado ao Bar do Léo. Mas ele pode ser tão somente o bode espiatório para ocultar outros interesses.

Um amigo me chamava a atenção: a corrida imobiliária está desencadeando junto a grupos poderosos interesses econômicos importantes na Ilha. As mudanças e investimentos na cidade alteram e revalorizam espaços e regiões da cidade. A especulação imobiliária sempre tira proveito. E os interesses econômicos sempre muito bem situados politicamente não perdem oportunidade de colocar o público a serviço do privado.

O Bar do Léo se situa numa área de grande crescimento comercial e habitacional de classe média alta. Aquele horto com a finalidade que tem, de agregar pequenos feirantes cooperativados, pode estar com os dias contados. O Léo pode ser apenas o primeiro a sair, para decretar a decadência do lugar.

Quem sabe depois surja alí um belíssimo e asséptico mini-shoping, onde tudo parece a mesma coisa e todo mundo é apenas mais um consumidor.

Pode ser assim?

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19 Respostas para “O Bar do Léo ameaçado de sumir do mapa

  1. Ricarte, esta notícia é agourenta.
    Acho que merece a mobilização imediata de todos que sentem a necessidade de consumir cultura. O Bar do Léo não pertence apenas ao senhor Leonildo. É uma espécie de bem cultural pelas razões que bem disseste no teu artigo. Por isso mesmo, pricisamos encontrar formas de revidarmos a esse tipo de atitude incultural por parte dessas autoridades que se escodem sobre o manto do Estado. Vamos fundar o movimento em defesa da cultura do cotidiano e do Bar do Léo.

  2. Ricarte, muito bem escrito sobre o que o Bar do Léo significa. Eu inclusive digo que o Bar do Léo, é um bar para ser entendido.Precisamos de fato de uma mobilização urgente e eficaz, pois caso contrário, de fato um belo shopping ou algo parecido vai surgir por lá.
    Esse ato do governo do Estado, demosntra mais uma vez a total falta de sensibilidade.
    Bj
    PS.: Obrigada por colocar a foto e assim contribuir.

  3. Fafá e Celijon, queridos

    Eu que agradeço por vocês repercutirem essa, como disse Celijon, “agourenta notícia”, que eu já mais gostaria de dar.
    Mas é necessário mesmo fazer uma ampla articulação, no sentido de se evitar tamanha ignorância.
    Fafá, desculpe não ter pedido autorização. É que tinha pressa. E imaginei que considerando a causa, vc autorizaria sem problemas. Obrigado pela foto e pelo carinho.
    adoro vcs

  4. ricarte, estou pensando num protesto: “um artista etílico” (inspirado n”um artista da fome, de kafka) exposto ao público por 40 dias, bebendo, numa jaula, até que a pendenga se resolva. vou checar a história. e escrever sobre. abração!

  5. Bom, eu tô afastado das garrafas ultimamente (a idade, sempre ela), mas se não pintar ninguém eu até topo ir pro sacrifício. Condição: que o Leo melhore os seus tira-gostos e que não ponha, em hipótese alguma, Nélson Ned cantando Tudo passa, tudo passará (é, eu já ouvi essa por lá).
    Como disse no Soblônicas: é engraçado como somente agora a burocracia estatal “descobriu” a incompatibilidade do bar com as supostas finalidades contratuais – 30 anos depois.
    Só faltava essa!

  6. valeu Zema e Érico,
    a verdade é que, mesmo com os “tudo passa, tudo passará” o proprio Bar do Léo, que é muito importante até como espaço da diversidade musical, está ameaçado de passar. Precisamos nos mobilizar. O Zema tem uma proposta, um tanto Kafkiana ou KafCaniana, mas vá lá, abaixo a sandice do Estado. Salve o Bar do Léo.
    obrigado amigos

  7. Caro Ricarte.

    A tentativa de tirar o Bar do Léo da mercado do Vinhais vai na contramão das políticas públicas para esse setor. Em todo Brasil – podemos citar o caso da Cobal do Rio ou do Mercado Municipal de SP – trabalha-se para agregar aos mercados públicos um elemento cultural, para além da sua atividade de vendas de alimentos, uma vez que os supermercados cunprem essa tarefa. Os de SP e do RJ são pontos turísticos importantes, gerando renda e trabalho para os municípios e oferecendo o que os supermercados não tem: a cultura e a história do povo!
    Portanto, é um atentado o fechamento do Bar do Léo, além de ser uma burrice do ponto de vista das políticas públicas para esse setor.

    Saudações.

  8. Não é 'cunprem' como digitei errado, mas CUMPREM ! Esse teclado velho ainda me mata !!!

    Saudações.

  9. Corretíssimo Capovilla,
    É uma verdadeira contrariedade sob todos os aspectos coletivos, repúblicanos. Mas no velho e arcaico Maranhão, parece que a lógica das Políticas Públicas ainda não chegou.
    Enquanto isso a gente vai penando, engolindo sapo, crocodilos e outras lacraias.
    obrigado pelo comentário.
    grande abraço

  10. capovilla,
    esse acento aí em republicano não existe, desconsidere, por favor.

  11. Ricarte penso até que o Bar do Leo deve ser tratado agora como 'Museu do Leo'.
    Devemos e podemos institucionalizá-lo a partir de um grande movimento cultural concreto envolvendo o governo federal ou coisa do tipo.
    como disse bem o capovilla em são paulo e outras cidades os mercados assumiram hoje feições que os fizeram evoluir no tempo e no espaço. e não será um estéril parecer de um simples superintendentev que vai fazer mover a quantidade de história que existe ali naquele 'Museu do Leo'.

    forte abraço

    vou postar teu artigo no blog
    http://www.mardenramalho34.blogspot.com/

    todos em defesa do bar do leo.

  12. é verdade Marden,

    acho que esse deve ser o debate. assimilar o papel educativo-cultural daquele espaço, único na cidade, raro no brasil.
    quanto à publicação no seu bolg, fique a vontade. eu agradeço.
    abração

  13. Conheci o blog por causa da questão do bar do Léo.
    Parabens!!
    Passarei a ser frequentador a partir de hoje.
    Apoio a afirmaçao do Celijon

  14. obrigado Mauro,
    gostaria de postar com maior frequência. Infelizmente o tempo às vezes não permite. Mas a gente segue em frente.
    grande abraço,
    ricarte.

  15. estão tirando ele, pois é a viga mestra daquele horto. sem ele, os feirantes estão com os dias contados

  16. Amo o Bar do Leo, e o próprio Leo, apesar de se falar muito no seu humor variável…rss…Mas ele sempre me trata tão bem, amo aquele espaço, só uma pequena reclamação, o tira-gosto e a cerveja, aumentaram bastante de preço, eu já ando ali há uns 10 anos, acompanhei a evolução, tanto na estrutura, quanto nos valores do cardápio…rss… Enfim, mas isso a gente comenta depois, pq nada como essa notícia trágica de que aquele maravilhoso espaço, possa desaparecer…seria mesmo uma tragédia! Mas, essa versão que outros interesses estariam por trás, não pode e nem deve ser esquecida, acho que a população deveria entrar com uma ação popular para evitar esse absurdo e que esses senhores, que buscam a todo custo ir adiante com esse abuso de poder, desacreditados e afastados de suas funções, por promoverem um ato tão vil e baixo. Vou passar a informação adiante, farei uso do meu blog, e-mails, boca-a-boca…tudo! Que isso não vá adiante!!!!

  17. Floema e Ana Luiza,

    Concordo com vcs plenamente. Essa ignorância absurda atenta contra todos os que cultuam a cultura e a boa música brasileira. Mas felizmente, tudo já foi resolvido. O novo9 contrato ja foi assinado por mais dez anos. Ainda bem. o Museu Bar do Léo tá garantido.
    um grande abraço e obrigado.

  18. Floema e Ana Luiza,

    Concordo com vcs plenamente. Essa ignorância absurda atenta contra todos os que cultuam a cultura e a boa música brasileira. Mas felizmente, tudo já foi resolvido. O novo9 contrato ja foi assinado por mais dez anos. Ainda bem. o Museu Bar do Léo tá garantido.
    um grande abraço e obrigado.

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