A marginalização da mandioca, a fome, a morte e o modelo

Não é de hoje que o Maranhão é alvo dos chamados grandes projetos. Se fossem mesmo de desenvolvimento, como dizem, já seríamos uma Dinamarca ou uma Noruega, para usar referências deles mesmos.

Essa cantilena aí, empurrada goela abaixo, é a face econômica do modelo político predador, patrimonialista que ainda impera por estas terras, herdado dos nossos colonizadores europeus.

Essa moeda suja e banhada de sangue dos nossos povos negro e indígena é o que garante a perpetuação desse modelo perverso e cruel, na política e na economia.

Uma coisa leva a outra e vise-versa. Ambas levam à morte de nossa gente. Quando não de fome, de bala, na luta pelo seu chão, como ocorreu com Flaviano na comunidade de Charco, São Vicente de Férrer; de trabalho forçado nas fazendas de São Paulo, Mato Grosso; ou até nas cadeias como vimos estarrecidos nestes últimos dois dias, em Pedrinhas.

Se não, como explicar, em pleno século XXI, tanta mão de obra escrava, tanta morte de índios, de trabalhadores rurais na luta pela terra. Como explicar tanta morte de negros e pobres nas nossas masmorras modernas?

Tudo em favor ou em consequência desse modelo de “desenvolvimento”.

Mas essa terra, nós sabemos, é terra de negro. Esse chão é de índio. E não adianta dizer que somos Atenas. Nós somos apenas brasileiros. E isso nos bastará, com orgulho.

Não adianta mais dizer que temos que comer trigo, soja ou folha de eucalipto; que temos que ser eternamente dependentes, colonizados. É hora de resistir pela cultura popular, pelas nossas identidades.

A Rede Mandioca surge desse sentimento, como resistência cultural de nossos pequenos e bravos produtores, ainda invisíveis aos olhos do Estado; das identidades negra e indígena do nosso povo, em reinvenção permanente e, insistentemente, massacradas pela força do chamado desenvolvimento. Veja Alcântara, Estreito, o Baixo Parnaíba, os Gerais de Balsas, Piquiá, Buriticupu, dentre tantos outros exemplos de violação dos direitos humanos em nome do progresso.

A mandioca é o pão do pobre. Em todas as mesas, por mais pobre que seja, lá está a farinha, seja ela de puba (farinha d’água) ou a farinha seca. Seja a tapioca, o beiju, o bolo de puba, uma riqueza sem fim.

Temos seguramente no Maranhão a maior área plantada de mandioca do país. Mas pra essa gente aí, era estratégico negar tudo isso. Necessitavam impor outras culturas, de preferência que viessem de fora. Ou seja, gerar fome para gerar dependência.

Por isso, a soja aí se espalhando toda sobre nossas terras, semeando desmatamento, plantando conflitos, desenterrando a morte pro nosso povo. O eucalipto pintando a paisagem de um falso verde, esparramando um oceano de latifúndio, de desertificação e sequidão. Em curto tempo veremos o resultado, já que algumas consequências, igualmente cruéis, já se experimenta agora.

E o nosso povo morrendo à míngua, engordando apenas os indicadores de mortalidade infantil, de desnutrição e analfabetismo.

E a mandioca aí, sem ser vista, os trabalhadores produtores de mandioca sem assistência, sem crédito, marginalizados pelo Estado. A insegurança alimentar e nutricional instalada com toda força.

Que desenvolvimento é esse?

Estamos chegando a uma situação que nem os protagonistas deste modelo sabem mais como, sequer, aliviar os estrangulamentos, que já comprometem a vida no planeta.

As mudanças climáticas causando morte e pavor em todo mundo. A violência sem limites; a nossa juventude ameaçada pela drogas: o crack já é uma epidemia até entre as crianças.

As periferias urbanas, absolutamente abandonadas, um quadro desolador; a corrupção absoluta em todos os poderes. Tudo isso é o retrato desse modelo exaurido, cujo futuro é o caos.

Na contramão disso tudo, há experiências que apontam noutra direção. Pequenas iniciativas, fundadas no respeito aos direitos humanos, no respeito à biodiversidade, na solidariedade entre as pessoas.

Desde 2004, dentro do programa de Economia Popular Solidária, a Cáritas Brasileira Regional Maranhão, vem acalentando, animando, junto a grupos produtores, esse movimento que se chama Rede Mandioca.

Esta rede que vem sendo tecida por diversos trabalhadores e trabalhadoras, por diversos grupos produtivos, é apenas uma estratégia conjunta de animar a solidariedade entre os pequenos trabalhadores rurais. De fortalecer traços de identidade dessa gente.

Identidades que se fortalecem e se ressignificam também a partir daquilo que nos alimenta o corpo e o espírito, daquilo que dá sentido e movimento para suas vidas.

Este I Festival Estadual da Rede Mandioca, é uma das estratégias de mobilizar para agregar os trabalhadores e trabalhadoras, de chamar a atenção da sociedade, de dar visibilidade pública para esses pequenos produtores e para essa cultura, base alimentar cultural de nossas gentes.

Mobilizar para gerar direitos. Direito de viver em paz, com dignidade; de ter identidade; de se alimentar; de se organizar para produzir e participar; direito de preço justo; de preservar com amor a natureza; de gerar novos saberes e conhecimentos.

Estes são princípios que orientam essa rede de vida e que devem marcar a realização deste festival.

Parabéns a todos os produtores e produtoras de mandioca, que garantem o bom alimento na mesa dos maranhenses.

[texto deste blogueiro, proferido na abertura do I Festival Estadual da Rede Mandioca, ontem, 10 de novembro de 2010 – mais detalhes da programação neste link.

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Uma resposta para “A marginalização da mandioca, a fome, a morte e o modelo

  1. Muito bom o texto!

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