PASSADAS AS ELEIÇÕES, E AGORA?

Por Ricarte Almeida Santos

Agora é muito comum e, de certo modo, necessário o surgimento das mais diferentes análises sobre os resultados das urnas. “Cientistas políticos” de todos os timbres, tons, cores e calibres farão suas ilações analíticas, projetarão, a partir desse novo quadro recém emergido, o futuro político do país e do Estado.

Nestes três últimos dias, pós as eleições, já saíram interpretações, previsões para todos os gostos. O difícil mesmo será equacionar todas elas para que se materializem, uma vez que juntas a conta não bate, não fecha, de tão díspares que são as leituras e suas projeções.

Bom, mas isso é até natural. Consideremos que se fala sempre de um lugar, com uma carga de interesses específicos tão distintos quanto contraditórios, antagônicos entre si.

De todo modo, nos parece que, a considerar o resultado das urnas, o que elas dizem e o que não dizem, através do voto ora revelado, não estamos atentos para os não recados, ou melhor, para o não dito, ou melhor, ainda, para o dito através do não voto.

A nossa tentação é grande, assim que saímos de um pleito eleitoral como este ainda em curso, em mensurar o quadro, supostamente real, objetivo dos resultados. Definir o perfil dos eleitos, seja aos cargos executivos, seja às câmaras parlamentares. Identificar os movimentos futuros das forças políticas em disputa. Uns dizem “o governo fez barba, cabelo e bigode” e, por isso, os rumos daqui para frente serão assim, assim, assado.

Outros fazem questão de decretar o renascimento da oposição, determinando outro futuro político para o estado e o país, com um outro desenho e outra correlação de forças, “profetizam”. Como se só aos partidos (situação e oposição) coubesse a tarefa de construir o futuro político da nação.

Todas as percepções parecem óbvias, ao mesmo tempo distintas e até inconciliáveis. Mas todas dentro de uma mesma lógica, reducionista, anacrônica e anti-popular.

O cidadão comum, a dona de casa, o pescador, o carroceiro, o camelô, a quebradeira de coco, o pequeno agricultor, o ribeirinho, o funcionário público, a professora, o catador de lixo, etc não entram na equação. Sua “participação” reduz-se ao voto. Até o voto, quando muito. Essa é a noção de democracia que se tem, eleição após eleição.

E nem vamos falar das distorções que “animam” esse processo eleitoral, já tão corrente nestas bandas. Compra e venda de voto. Uso da máquina pública, do poder econômico. Comprometimento do Judiciário. Cegueira seletiva do Ministério Público. Controle familiar dos meios de comunicação. Não, não vamos entrar diretamente nessa seara, ampla, rica e complexa. Isso só bastaria para compreender muita coisa.

Nossa abordagem, embora tudo isso se resvale e se relacione, será sobre outros sinais não revelados pelo quadro dos eleitos.

Primeiro, nestas eleições, chamou atenção o esvaziamento do discurso de todos os/as candidatos/as.

Os partidos parecem não mais substanciados, alimentados por uma via orgânica das lutas sociais, junto aos movimentos e organizações populares, com demandas reais e concretas travadas no dia-a-dia. Todos eles. Desde aqueles que foram talhados e urdidos na luta pela democracia, pelas liberdades e pelos direitos humanos, gradativamente perdendo substância e suas bandeiras, literalmente; ou ainda tendo seus candidatos orientados meramente por necessidades midiáticas, adocicando a fala, a postura e as estratégias ao sabor do mercado do voto.

De modo diferente, os partidos mais à extrema esquerda sugerem não compreender, igualmente, o novo momento que a sociedade vive, de profundas e novas demandas e transformações sociais, de construção de sinergias planetárias, sentidos de redes, construção de identidades das lutas do planeta, com suas pluralidades e multiculturalidades, as outras formas e arenas de dominação, que precisam ser compreendidas, assumidas e superadas por todos e todas, na construção coletiva de um novo mundo, de uma sociedade melhor, democrática, justa e plural, sem a existência de vanguardas iluminadas.

Essa compreensão parece passar ao largo das falas dos nossos socialistas mais radicais. A cantilena é a mesma de sempre.

E isso também, ao que tudo indica, principalmente as urnas, parece não mais ecoar junto à sociedade. Não mais responde aos anseios do cidadão e da cidadã de hoje. É cada vez menor o desempenho dessas siglas nas eleições, mesmo controlando sindicatos importantes. Alguma coisa deve estar errada. Exige, no mínimo, um esforço de reflexão.

A vida política da esquerda, da ultraesquerda, seja lá de quem for desse campo popular democrático, não pode prescindir da participação popular. Viver a política não pode e não deve ser uma necessidade só do período eleitoral.

A vida política é a vida, travada no cotidiano, das necessidades da pessoa humana, dos grupos sociais, das comunidades tradicionais, contra a violação dos Direitos Humanos, da emergência de novos atores e de novos direitos, contra a corrupção administrativa que desvia dinheiro público destinado a efetivar direitos na vida das pessoas. É aqui que as pessoas vivem, produzem, sofrem, lutam, se organizam, festejam, amam. Constroem identidades e desenvolvem processos emancipatórios, que a democracia representativa já não dá conta de absorver.

A grande política não pode estar distanciada disso, dessa substância. Urge uma reaproximação dos partidos desse conteúdo da vida. Ou a reinvenção de novos partidos com essa identidade. Sob pena de nos restar, na chamada grande arena, sempre a pequena política, de debater apenas as frustrações eleitorais, que nas condições impostas pela nossa tradição patrimonialista, mencionadas no começo deste texto, nos sobra.

Os candidatos, os eleitos, os partidos do campo popular democrático, precisam dialogar com os segmentos organizados, discutir os temas atuais, incorporar as novas demandas, as novas proposições coletivas, reconhecer os novos atores, segmentos e identidades. Precisam assumir os riscos de ter posição, vivência, coerência, substância e legitimidade.

Diferente disso, mesmo com rótulo de esquerda, é entrar na arena tosca da política tradicional que só espera por votos. E pelos números crescentes de abstenções que se revelam a cada eleição, vão ficar cada vez mais raros. Os “eleitos”, a qualquer custo, cada vez mais sem legitimidade. A democracia representativa já caduca.

Anúncios

7 Respostas para “PASSADAS AS ELEIÇÕES, E AGORA?

  1. Para os partidos de esquerda que disputam poder, movimentos social representa, apenas, duas palavras no discurso. Uma pequena azeitona perdida no meio de um empadão. A democracia representativa está na UTI. No caso do Maranhão, defendo, já algum tempo, uma necessidade de articulação mais profunda dos setores que ainda acreditam na organização social, como melhor forma de luta política.

    Emilio Azevedo

  2. Para os partidos de esquerda que disputam poder, movimentos social representa, apenas, duas palavras no discurso. Uma pequena azeitona perdida no meio de um empadão. A democracia representativa está na UTI. No caso do Maranhão, defendo, já algum tempo, uma necessidade de articulação mais profunda dos setores que ainda acreditam na organização social, como melhor forma de luta política.

    Emilio Azevedo

  3. Emílo,valeu
    Penso ser este o caminho. Criar novos espaços de participação direta. Democracia participativa.
    Obrigado pelo comentário e visita.
    abs
    ricarte

  4. ricarte, bom texto. acho que o problema da política no maranhão se evidenciou nesta eleição quando vimos jackson e dino disputando votos entre eles. faltou um objetivo comum, que era mudar o maranhão. enquanto os interesses particulares estiverem por cima do nosso desejo de mudar o nosso estado, aqueles que estão no poder vão continuar por lá…

  5. Grande Marcos Ramon

    bom saber notícias suas, rapaz.
    como andam as coisa aí em BZB?
    por aqui, é isso mesmo. oposição não se emenda mesmo. coisas do Maranhão, ainda. Infelizmente.

    e a família, esposa e filhote, já se adaptaram a esse ar seco daí?

    tudo de bom, querido.

    obrigado pela visita e comentário.

    grande abraço,

    ricarte

  6. Olá Ricarte,

    que bom que ainda temos maranhenses que se preocupam com a politica do nosso Estado. Eu estou quase desanimando, “as oposições” querem ir ao poder mais desunidas como estão, jamais consequirão vencer (eles), é cada um por sí, e os poucos que desejam mudança de verdade aqui em baixo, não se sentem representados, os partidos em vez de ideiais tem negócios, e o eleitor como eu fica a deriva, agora “acreditando” no candidato e não na bandeira que seu grupo prega.Sem união e organização, só com esse discurso velho, jamais chegaremos lá.

    Roberto Veras

  7. é isso Roberto.

    precisamos recuperar a grande política, como espaço público de debater o estado, a sociedade e a vida.

    obrigado, amigo pela visita e comentário.

    ricarte

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s