Lula, insensível, não sabe o que é greve de fome

POR RICARTE ALMEIDA SANTOS

nas fotos, ao alto, Lula e Zé Maria (hoje no PSTU), quando companheiros
no ABC; em seguida, Mané, bem mais jovem, em página de reportagem.

Há uns seis anos participei de um simpósio internacional sobre Dívida Externa e Militarização na América Latina, em Quito, capital do Equador.

Foi uma semana inteira de muito debate e reflexão sobre o assunto com importantes especialistas e ativistas políticos latinoamericanos e convidados de outros continentes.

Um dos objetivos do grande evento era identificar, discutir e articular estratégias de resistência popular ao, então, crescente processo de endividamento e de implantação de bases militares estadunidenses na América Latina, no sentido de garantir respeito a autodeterminação de suas nações e condições de vida digna de seus povos: indígenas, quilombolas, seringueiros, ribeirinhos, quebradeiras de coco, etc.

Esse evento aconteceu no ambiente pós-eleição de Lula e Chávez, como presidentes de Brasil e Venezuela, respectivamente; tempos de discussão da ALCA; do “acordo” com os EUA sobre o uso da Base de Alcântara, enfim, de todo um ambiente herdado do tucanato obediente aos ditames de Washington e das possibilidades que as eleições de Lula e Chávez poderiam representar para uma nova perspectiva para a América Latina, frente ao padrão de dominação até então vigente no continente do hemisfério sul.

Em meio a críticas, incertezas, dúvidas, uma pontinha de esperança, vacinada, emergia das falas dos participantes, populares, palestrantes, conferencistas, etc. Todos reconheciam uma melhor perspectiva, como de fato depois pode-se perceber na AL, toda uma reconfiguração da correlação de forças políticas neste continente.

Foi uma experiência rica que tive convivendo bem próximo, por uma semana, ao lado de figuras como Evo Morales (então 2º lugar nas eleições da Bolívia), Marcos Arruda, José Maria (presidenciável do PSTU), D. Demétrio Valentini (bispo de Jales e Presidente da Cáritas Brasileira), João Pedro Stédile (MST e Via Campesina), Luiz Basségio (Grito dos Excluídos Continental), Ivo Polleto (Assessor da Cáritas Brasileira e das Pastorais Sociais), dentre outras figuras de histórias de luta e resistência.

Dentre as muitas recordações daquele rico evento, das grandes discussões, encaminhamentos que definimos no coletivo, posso lembrar também das mesas de bar que dividi com essas figuras; do aparato policial que nosso hotel mereceu por hospedar a figura de Evo Morales, um quase presidente. Era polícia pelo arredores do hotel, pelos corredores, por todos os lugares, que dava até medo! Da minha estréia com gás lacrimogênio numa manifestação que fizemos em frente ao hotel, que abrigava uma reunião de ministros da economia dos países latinoamericanos, fortemente reprimida pela polícia; a disposição e a bravura de D. Demétrio de enfrentar a polícia e o gás, enfim, diversos acontecimentos marcaram aquele simpósio.

Mas um fato, uma história contada, no avião de regresso ao Brasil, pelo líder sindical Zé Maria(PSTU), já presidenciável na época, não me sai da lembrança até hoje e que talvez ajude a compreender a insensibilidade do hoje Presidente da República Luís Inácio com a greve de fome do seu companheiro de fundação do partido, Manoel da Conceição. Lula não sabe o que é uma greve de fome.

Na viagem, tive o prazer de sentar bem ao lado do Zé Maria, ex-colega de Lula nas lutas sindicais do ABC, com quem pude conversar longamente. Ele, já em uma roda ampliada dentro do avião, contava que quando foram presos – ele e Lula e outros companheiros do novo sindicalismo – resolveram fazer uma greve de fome na cadeia. Todos aderiram, virou notícia rapidamente na imprensa nacional e internacional. Tal não foi a decepção quando os companheiros descobriram que Lula, espertamente, estava furando a greve de fome, recebendo barras de chocolate e comendo às escondidas. Assim é Lula, um brasileiro, esperto, macunaímico.

De modo que a greve de fome de Mané, Dutra e Teresinha pode passar a largo do “mole coração” e das lágrimas midiáticas do presidente. Lula, além de ignorar o martírio histórico, a importância de Manoel da Conceição para o partido e para os movimentos sociais no mundo, como tem demonstrado nesse caso e no episódio de D. Luiz Cappio, não sabe o que efetivamente significa uma greve de fome.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s