Clube do Choro do Maranhão: "o bom filho à casa torna"

O ano era 2002. Foi realizado em São Luís o primeiro – e único – Festival Internacional de Música de São Luís. Aquele Festival, assim mesmo com “F” maiúsculo, seguramente tenha sido o mais importante acontecimento musical do Maranhão.

Não se tem registro na história da cidade ou do estado de um evento naquelas proporções e qualidade. A cidade respirou música por todos os cantos, ruas, praças, bairros, auditórios, fontes, igrejas, bares, etc. Músicos locais, nacionais e internacionais perambulavam pelas ruas de São Luís.

Você saía por aí e se deparava com um Heraldo do Monte estraçalhando em sua guitarra, em plena Fonte do Ribeirão; seguia em frente e logo ali, pela praça Nauro Machado, se deliciava com a “menor big band do mundo”, a dupla Zé da Velha e Sivério Pontes; subia em direção à praça Benedito Leite, e se emocionava com as harmonias bossanovistas em perfeitas sincronia e dissonâncias de Os Cariocas; se se dirigisse rumo ao Convento das Mercês, você poderia ficar frente a frente com uma majestosa Orquestra da Romênia, em concerto do pianista e maestro brasileiro Arthur Moreira Lima; ao entrar numa das muitas salas do dito – e apropriado – Covento, você poderia se deparar com um Chiquinho França, virtuose ao bandolim, ou com o genial Hamilton de Holanda; se fosse à casa de um amigo chorão, você quem sabe ficaria lado a lado, numa roda de choro, com um Paulinho da Viola, ou com um Jorge Cardoso, com o mestre Felipe; se você despretensiosamente saísse apenas pra tomar uma cerveja em um barzinho da Praia Grande, ainda assim você poderia ser surpreendido por uma canja especial de Ed Motta. Isso só pra lembrar algumas das situações que presenciei assim, fácil, fácil. Mas era muito, mas muito mais.

Essa era a ambiência, que deixou saudades e que inspirou a fundação do Clube do Choro do Maranhão. Naquele ano, em uma reunião na Associação do Pessoal da Caixa, no Calhau, foi fundado o nosso Clube do Choro. João Pedro Borges, Francisco Solano, Juca do Cavaco, Paulo Trabulsi, Serra de Almeida, Zeca do Cavaco, Ricarte Almeida Santos, dentre outros, estiveram presentes naquele encontro político-organizativo.

Naquela Associação também foram organizados os primeiros saraus do então recém-fundado Clube do Choro. Foram muitas as quintas-feiras de choro, alegria e grandes encontros. Lembro do mestre João Pedro Borges, lá, todas as quintas, organizando tudo, passando o som, esclarecendo ao público sobre a cultura do Choro, um luxo. Por lá passaram nomes como Jorge Cardoso, Silvério Pontes, Ivanildo Sax de Ouro, além dos nossos chorões da Ilha.

Depois, as rodas do Clube do Choro se mudaram de malas e bagagens para o bar Terceiro Piso, na Cohama, de propriedade do violonista Celson Mendes. Um período curto, mas de intensa vivência chorística.

No entanto, o mais intenso, longo e produtivo capítulo da entidade chorona, foi o projeto “Clube do Choro Recebe”, que funcionou por dois anos e meio no bar e restaurante Chico Canhoto, no residencial São Domingos. Por lá, o sarau do Clube do Choro entrou paro o calendário semanal no imaginário coletivo da cidade. Foram mais de 100 (cem) edições semanais, congregando chorões, apreciadores, artistas das mais diversas vertentes musicais do Maranhão, do Brasil e do planeta. Noites inesquecíveis, que mexeram na cabeça de chorões e não chorões; que sacudiu a poeira de visões arcaicas sobre o choro, que rompeu preconceitos junto aos mais jovens, que revelou ao público novos e antigos nomes, que colocou o choro e a música instrumental na pauta dos bares de São Luís e no repertório de músicos, cantores e cantoras, enfim deu uma desarrumada legal na mesmice que imperava.

Depois de uma parada estratégica para as festas de ano novo e carnaval, finalmente o projeto “Clube do Choro Recebe” está de volta. E agora não mais no Chico Canhoto, onde a coisa ganhou corpo, boa acolhida e grande visibilidade. É que a casa fechou por motivos alheios à nossa vontade. Agora, no próximo sábado, dia 6 de março, como diz o título do Choro do Bonfíglio de Oliveira, “O bom filho à casa torna”. O projeto “Clube do Choro Recebe” está de volta à Associação do Pessoal da Caixa, no Calhau, onde tudo começou.

Os Saraus vão acontecer no salão principal, todo coberto, com brisa do mar, estacionamento próprio, todas as condições de conforto e segurança, como os chorões bem merecem.

E para o Sarau de estreia, a presença dos diversos grupos de choro e chorões outros, que desfilarão seus talentos instrumentais, em uma grande festa. Muitas serão as canjas também de cantores e cantoras. A noite encerrará com um grande show do cantor e compositor Carlinhos Veloz, acompanhado pelo tradicionalíssimo grupo Tira-Teima. No repertório, choro, samba, samba-choro, maxixe, baião, e as consagradas por Veloz, cujo fã-clube na cidade não é pequeno.

Assim, em grande estilo, será a retorno do Clube do Choro à Associação do Pessoal da Caixa. Que os Deuses da música estejam presentes. Amém!

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