Choro, músicas, identidades, aldeias, colônias e planeta

A propósito do que ocorre com o projeto Clube do Choro Recebe, que amanhã, dia 1º/09, completa dois anos de atividades ininterruptas, como espaço do diálogo do Choro, essa grande vertente da música brasileira, com a diversidade da música do Maranhão e do planeta, travei uma conversa bem informal, via e-mail, com um importante músico amigo. Penso que pode render outras reflexões em torno desse tema: Músicas, identidades, aldeias, colônias e planeta. Segue aí, por sugestão de outros amigos, que acompanharam o papo virtual, a mais recente mensagem que lhe enviei.

Obrigado por suas palavras de incentivo. Concordo com você, também acho que as artes e as culturas são bens de todos, dos povos. Nós, agentes culturais, artistas somos instrumentos articuladores, processadores dessas riquezas coletivas do jeito de ser dos povos do planeta. E mais, em um país e em um estado pobres como os nossos, a nossa produção artísitica deve estar também a serviço da inclusão, a nossa postura deve ser de acessibilidade dos mais pobres e humildes a seus direitos.

Os nossos projetos devem sempre ter também esse viés. Também acho que não há arte, música ou cultura superior. O que existe na maioria vezes é que se submete as artes/culturas aos interesses massivos/lucrativos do mercado. Aí nivela por baixo. São os chamados fenômenos de venda. Aí sim ocorre a degeneração, a pasteurização da arte e da cultura, como estamos assistindo com o forró, com o sertanejo, com o pagode, etc.

Acaba virando coisa descartável, sem moradia pro belo, pro artístico. No mais, penso que tanto o choro, como o jazz, o baião, o tango, a salsa, o fado, enfim, são grandes músicas, grandes linguagens musicais estruturantes, dos diferentes povos do planeta. Elas dialogam com as novas informações, se misturam entre si, são grandes matrizes, precisam ser cultuadas e valorizadas.

São todas patrimônios universais. Sem donos, nem superioridades de ninguém. O que ocorre é que, como somos um país colonizado por americanos e europeus, botaram na nossa cabeça que temos uma arte, uma cultura, uma música inferiores; que a boa, a superior, é a deles. E muitos de nós acreditamos.

Em resumo: a deles é boa, é ótima, nós gostamos. Mas a nossa também é rica, é autêntica, é moderna e aberta a fusões, a trocas, enfim, é original de nosso povo. Nós devemos ter orgulho da nossa música. Ela faz parte das nossas identidades. Só assim o mundo nos respeitará. Sobre os ruídos que houveram, são mal entendidos, interpretações, forças de expressão que acabam produzindo incompreensões.

Vejo que estamos no mesmo barco, empenhados na valorização e abertura de espaço para a música instrumental brasileira, mas com a cabeça aberta ao planeta e com o pé no terreiro do Maranhão.

Esperamos em breve, tê-lo no Clube do Choro, tocando nossa música, claro, com todas as influências e informações que você bebe no mundo. Um grande abraço, com admiração.

Ricarte

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5 Respostas para “Choro, músicas, identidades, aldeias, colônias e planeta

  1. Caro Ricarte.

    Concordo com seus argumentos. O campo das artes é, para mim e para muitos, o mais complexo e difícil campo de reflexão, pois a matéria-prima – a arte – é algo por demais abstrata e sentimental, o que requer maior investigação e um pensamento mais refinado.Entretanto, a principal barreira a ser superada num tratamento conceitual sobre a arte, é a visão de que “arte é uma quetaõ de gosto e que gosto não se discute”. Esse senso comum artístico só tem um beneficiário: a grande indústria de massas, os oligopólios transnacionais do entretenimento, o imperialismo cultural.
    Portanto, podemos sim dar um tratamento histórico-social, objetivo, ao fenômeno artístico, denunciando a homogeneidade alienante de algumas estéticas mercadológicas.
    Desculpe pelo texto grande, é que o assunto é instigante…

    Saudações.

  2. Então Capovilla,
    esse é um campo vasto de reflexão. Mas instigante e necessário. Essa estória de “questão de gosto” são gostos construídos por quem detém a máquina cultural. Aí vai domesticando todo mundo para uma certa mediocridade. Fácil de virar consumidor da grande insdústria de entretenimento. Um beiradinha só pra dominação geral das cabeças. E tome lucro.
    Valeu Cpovilla pelo belo comentário

  3. é como diria oscar wilde no seu sensacional “a alma do homem sob o socialismo”: “não é a arte que tem que aspirar a se tornar popular, mas o povo que tem que aspirar a se tornar artístico”, cito de cabeça, talvez a frase não esteja cunhada exatamente como ele o fez, mas a ideia central é essa. isso de “gosto não se discute” ou “é como aquilo, cada um tem o seu” é balela. prova disso é, exemplo raso, ver uma praça cheia, em qualquer cidade do interior (ou mesmo cá na capital) para um concerto de música erudita, com peças de compositores cujo conhecimento da população (não por culpa dela, frise-se) sequer havia sonhado. a praça lota. isto é: faltou mesmo foi oportunidade à população para conhecer aquilo. não discutir gosto é conformismo e à medida que vamos nos conformando, todas as pragas que os malas com seus porta-malas a céu aberto a todo volume vão entupindo nossos ouvidos. eu não me conformo. graças a deus! abração!

  4. Marcia Oliveira

    A indústria cultural transforma arte em entretenimento, cujo único objetivo é o consumo, ocorre à banalização da arte e da cultura.
    Não há mais espaço para o belo e para o diferente, ou melhor, não deveria haver, mas, a cultura resiste.
    Enquanto lócus de resistência e afirmação da identidade de um povo, concordo que a arte e a cultura devem ser um elemento de inclusão, de reconhecimento social, coletivo e individual. Para tanto, é fundamental que o acesso a bens culturais – produção e difusão – seja democratizado, favorecendo a diversidade cultural. Assim, será possível que a arte e a cultura sejam inclusivas e apreciadas, não mais submetida às estratégias de mercado e a hegemonia cultural.

  5. Olá Marcia,

    É isso mesmo. Seu comentário enriquece em muito esse debate. Fico muito grato com sua contribuição.Esse reflexão precisa acontecer com mais abrangência e constância. Ele ainda é muito restrito. A universidade, a sociedade civil precisa incorporá-la como dimensão indissociável da luta por direitos humanos. Agradeço sua visita e comentário, belíssimos.
    abração

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