A musical Viana

Há muito que a cidade de Viana me chama a atenção. E não é só por sua beleza arquitetônica, nem tão somente pela bela paisagem natural que a rodeia, cheia de verdes campos e lindos lagos. Embora esses dois atributos já fossem suficientes para despertar uma atenção especial em qualquer alma sensível. Mas o que também me chama muito a atenção em Viana é a musicalidade de sua gente.

É impressionante a quantidade de grandes músicos, instrumentistas, cantores, compositores, alguns renomados, outros anônimos, oriundos da pequena e histórica Viana, nas mais diferentes épocas.E isso fica mais evidente quando o assunto são os músicos de sopro – saxofonistas, clarinetistas, trombonistas, flautistas etc. Eu, como interessado por música instrumental, especialmente pelo Choro no Maranhão, sempre fiquei inquietado por tão expressiva força musical/instrumental daquela centenária Cidade.

Os estudos do saudoso Pe. Mohana já apontavam essa vocação musical de Viana, ainda que muito possa se investigar sobre essa sua característica.

Esta semana, em função das enchentes que assolam o Maranhão, pude visitar a Cidade e, além das ações de socorro aos desabrigados que empreendemos por lá, na condição de integrante da Cáritas Brasileira, pude constatar in loco essas reminiscências musicais de Viana.

Enquanto aguardávamos o carregamento de um caminhão com donativos aos desabrigados de Viana eu pude verificar bem em frente ao Armazém a existência de uma pequena alfaiataria. Tipo de estabelecimento quase em extinção por lá e por aqui. Entrei e puxei conversa com o velho alfaiate, cercado de paletós, calsas, camisas, que lentamente costurava uma nova peça.

Seu Joca, como é conhecido, me revelou que o ofício está quase desaparecendo em Viana, uma vez que os jovens de hoje não têm mais interesse em aprender a arte de costurar. Lamentava ele ao dizer que em outros áureos tempos os inúmeros alfaiates vestiam toda a grã finagem da cidade para os muitos bailes de orquestras que animvam com grande frequência a, então, auspiciosa Viana. Eram muitas as orquestras, diversos eram os mestres de bandas por lá.


[o músico e alfaiate Joca – foto: ricarte]

Seu Joca – na verdade seu nome é João Batista Franco -, neto de Saturnino Franco, antigo clarinetista, com os olhos marejados d’água me confidenciou também ser um músico de sopro. Falou com enorme saudade dos tempos dos muitos bailes que ajudava a animar e vestir, com os dois nobres ofícios que aprendeu. Tocar e costurar.


[uma antiga Orquestra de Viana – S. Joca de camisa listrada – foto da foto: ricarte]

Espalhando sobre a mesa de cortar tecidos diversas fotos antigas de músicos e instrumentistas com quem tocou, me confidenciou com uma ponta de satisfação e bom orgulho, tocar todos os intrumentos de bocal, como trombone, pistom, bombardino, barítono e até tuba.


[roda musical doméstica – S. Joca ao centro(trombone) – foto da foto: ricarte]

Falou sobre alguns músicos importantes da cidade que sempre incentivaram o ensino e a prática da música instrumental, a exemplo do mestre Astolfo, um velho saxofonista e clarinetista ainda vivo e dos professores Tarcísio e João Lobato. Os dois últimos ainda desempenham a tarefa quase missionária do ensino da música em Viana. Daí a continuidade dessa cultura musical na hoje modesta cidade.


[S. Joca (trombone) e o velho mestre Astolfo(sax) – duas gerações musicais de Viana – foto da foto: ricarte]

Outra reminiscência da forte e saudosa musicalidade vianense encontrei bem ao lado da alfaiataria. Uma humilde casinha branca ostenta uma singela placa de metal com os seguintes dizeres: “ACADEMIA VIANENSE DE LETRAS – Neste local existia a casa onde residiu o compositor Temístocles Lima, autor da música do Hino Vianense”. No mínimo, isso tudo revela que essa história de música em Viana tem um valor para sua gente, que é sua própria identidade.


[casa histórica – foto: ricarte]


[placa da casa do maestro Temístocles Lima – foto: ricarte]

Penso ser aquela cidade – e outras da baixada – um acervo, um patrimônio musical preciosíssimo a ser investigado e pesquisado. Será tarefa de todos nós, estudiosos, militantes, músicos, agentes culturais, enfim, de todos os que querem compreender o passado, entender o presente e construir o futuro da nossa música.

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13 Respostas para “A musical Viana

  1. Amigo Ricarte Santos, gostei muito do artigo sobre a musicalidade de Viana. Tenho o seu blog na minha lista de blogues. Se possível adicione o meu blog ao seu http://www.ovianense.com e ainda acompanho o Rico Choro.

    Um abraço!

    Fiz a reprodução do seu artigo no meu blog. Flw

  2. ricarte: você é genial. conseguir captar poeticamente tudo isso em tão pouco tempo e ainda mais em meio ao outro objetivo da viagem não é pra qualquer um. espero que isso te dê novo impulso para manter certa frequência por aqui, risos. quem sempre lê seu blogue, como eu, sente falta. parabéns! um grande abraço!

  3. Caro Alexandre,
    obrigadopor nos acompanhar. prometo qu vou adicioná-lo aos preferidos do ricochoro. é que sou meio bronco com essa estória de internet. mas eu chego lá. e viana é pura música.parabéns.

  4. caríssimo Zema,
    você é que muito generoso e amigo.
    eu até que gostaria de postar com maior frequência, mas a preguiça e o aperto de tempo não permitem. fareimum esforçopara pelo menos diminuir o intervalo de postagem.grande abraço e obrigado.

  5. Ricarte, o saúdo pela preocupação permanente em entender a cultura, ou a sociologia da música produzida por nosso povo, em espcial, aos homens de instrumentos.
    Quanto há revelar nas retretas imaginárias da mente de cada sobrevivente de uma época em, no Brasil, esse tipo de músico e música tenham lugar e punjança. Outro dia deparei-me com um trabalho sobre cinema e São Luís cuja pesquisa remonta de 1902 a 30. É do Euclides e ainda não li. Só o esforço já vale a pena.
    Sempre fui tentado a conseguir financiamento de projeto para ficar escrarafunchado no Arquivo Público pesquisar o que foi dito e publicado sobre nossa música. Um dia flagrei num artigo a informação que o samba do maranhão era diferente do da bahia, do rio (falo do íncio de tudo).. mas cadente, andamento lento. Aí pensei: agente tava ocom Antônio Viera na mão, ao vivo, pra descobrir isso e não fizemos nada.
    Por tudo isso, acho se encontrares veios é melhor sucá-los.

  6. Caro amigo Celijon,

    então meu caro, as informações sobre o passado a gente já carrega como uma espécie de dna. os personagens estão aí entre nós. às vezes até somos um. a história quem faz é o povo, em todas as épocas. São essas informações que ajudam a fazer o hoje, com os elementos que temos, misturadas, processadas, que projetarão também o futuro, claro, com novos processos. cabe a nós mediadores, identificar esses caminhos, personagens, enfim. e sua percepção aguçada, problematizadora é (quase) tudo nessa diração. vamos botar a mão na massa. obrigado por seu comentário.
    um grande abraço
    ricarte.

  7. Interessante o artigo sobre a musicalidade da cidade de Viana. Também penso que existe bastante material para ser pesquisado, presente em diversificadas formas de manifestações culturais e religiosas. É um meio de preservar a história e resgatar o que está sendo perdido da nossa música. Por exemplo, Mestre Leonardo, do Boi da Liberdade, compôs mais de 200 toadas de bumba-meu-boi e tambor de crioula, como era analfabeto e compôs de cabeça, deixou registro em apenas dois Cds.

  8. pois é, marcia,
    é ufanismo nenhum, até porque em todo lugar se produz história e cultura. mas precisamos sistematizar melhor a que produzimos, no sentido de que precisamos melhos nos cmpreender. obrigado pelo comentário.

  9. Parabéns pelo artigo.
    É uma dádiva ter esse olhar poético sobre uma cidade histórica, de certa forma esquecida pelo poder público. Como vianense nativo (admito a xenofobia, rsrsr) mantenho o site http://www.vianacidadedoslagos.com e o blog vianensidades.blogspot.com.
    Estou entrando na sua lista de seguidores e postando essa interessante matéria sobre a musicalidade da cidade dos lagos.

    Um abraço,

    Luiz Antonio Morais

  10. Valeu Luiz,
    obrigado pela atenção. De fato Viana merece maior atenção dos gestores públicos. Por suas beleza naturais pelo seu patrimônio cultural, no qual se inclui sua gente bela, acolhedora e musical.
    abração,
    ricarte.

  11. Jarbas Couto e Lima

    Ricarte,
    As fotos da cidade, o alfaite, o clima das rodas musicais domésticas me fizeram lembrar da minha Colinas. Quando era menino, um cenário semelhante a este me era muito familiar. Músicos como Juarez Macêdo e José Maria Lima preenchiam de música e poesia nossos corações infantis e nossos ouvidos ainda inocentes de tanto barulho.
    Parabéns pela postagem.
    Um grande abraço!
    Jarbas

  12. Pois é meu caro Jarbas,

    É assim nessa ambiência poético-musical, como em Viana, na sua belíssima Colinas que se vai gestando bons cidadãos, pessoas mais sensíveis e belas.
    obrigado pelo visita e comentário.
    abração
    ricarte

  13. Ricarte, o Maranhão tem muito a mostrar ao resto do país. Pude ver com seu trabalho que muitas são as ligaçõesd e nossos interiores com a musicalidade. Temos uma singularidade muito grande em nosso jeito de tocar.
    um roteiro musical maranhense seria um excelente atrativo a ser trabalhado.

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