"O CHORO" e o (não)prefácio de Catullo

Catullo

O Animal
O Choro. É o título da primeira publicação(1936) escrita sobre os nossos precursores chorões. A árdua tarefa coube ao carteiro Alexandre Gonçalves Pinto, O Animal – como era conhecido. Homem simples, de pouca leitura e, por conseguinte, de frágil escrita.
Mas, envolvido que era por aquela atmosfera boêmia e musical, que marcou o final do século XIX e o início do XX – período do surgimento do Choro, o gênero – na cidade do Rio de Janeiro, o velho carteiro chamou para si a missão de registrar as “reminiscências dos chorões antigos” em livro.
É claro que foi uma obra simples, porém fundamental. Pois dá conta de registrar para posteridade informações, estórias e curiosidades dos primeiros chorões que corriam o risco de cair no esquecimento. Além de ser efetivamente a primeira obra escrita sobre o Choro no Brasil. Indispensável aos pesquisadores da música brasileira. Daí também a sua grande importância.
Pois o Animal, ao concluir os trabalhos de “O Choro”, encaminhou sem o menor constrangimento ao, então, famoso amigo, poeta, compositor, cantor e, segundo alguns, chato, Catullo da Paixão Cearense, para que este fizesse o prefácio da “chorística” e nascente obra.
O poeta maranhense não fez por menos. Fez valer sua fama de Chatullo. Mandou ver uma severa e carinhosa – se é que é possível conciliar essas duas condições – crítica aos escritos do amigo, em um rebuscado bilhete, se negando a prefaciar o livro do Animal.
Ainda assim o singelo e principiante escritor de “O Choro” não se fez de rogado. Mandou publicar assim mesmo, como se fosse o prefácio de sua obra, o crítico bilhete de Chatullo, digo, Catullo.
Agora, que tive acesso a esse material, em versão digital, graças ao amigo e pesquisador Celijon Ramos, quero partilhar com mais pessoas, esse curioso bilhete-(não)prefácio do nosso Catullo da Paixão Cearense, publicado no primeiro livro escrito sobre o nosso Chorinho, “O Choro”, de Alexandre Gonçalves Pinto, o Animal.
Leia, abaixo, no português da época, o (in)delicado bilhete que virou prefácio:

ALEXANDRE

O prefacio que me pediste para o teu livro, fica para outra vez. Não te posso ser util nas correcções dos erros, porque só uma revisão geral poderia melhoral-o, o que é impossivel, depois de o teres quase prompto.

O leitor, porém, se deliciará com a sua leitura, fechando
os olhos aos desmantelos grammaticaes, revivendo comtigo a
historias desses chorões, que te ficarão devendo eternamente
o serviço que lhes prestas, arrancando-os do esquecimento. Só mesmo tu, com o teu grande coração, serias capaz de uma obra tão saudosa para os que, como eu, viveram naqueles tempos de immarcesciveis recordações.
Se, como penso, este livro tiver o acolhimento que merece, para fazeres uma segunda edição, prometto-te corrigil-o com muito carinho, auxiliando-te no que puder, para que a lista completa dos antigos e afamados chorões, resuscitados por ti com boas gargalhadas e lagrimas sentidas, pois é uma ineffavel satisfação percorrer todas as “sepulturas” deste cemitério de vivos na nossa memória. Pedes-me uma poesia para a abertura? Envio-te esta, “O Passado”, que vem a calhar.
E, para terminar, recebe o abraço do amigo velho, que não se cansará de felicitar-te pela lembrança feliz deste formoso, carinhoso e saudoso breviario dos dias da nossa festiva, alegre e rumorosa mocidade
CATULLO CEARENSE
Rio, 28/10/935

Em tempo: Catullo da Paixão Cearense é, também, o autor da letra da primeira composição brasileira considerada Choro, enquanto gênero, Flor Amorosa, com música de Joaquim Antônio Callado. Daí que tem maranhense no choro desde o começo. No livro do Animal e na composição do Callado.

Anúncios

7 Respostas para “"O CHORO" e o (não)prefácio de Catullo

  1. obrigado por partilhar este pedaço de história que eu já conhecia das rodas de conversa, mas sem a transcrição integral com que agora presenteias teus leitores. essa é pra botar “na roda de choro”. grande abraço!

  2. obrigado zemaesse negócio de choro é cheio de histórias e estórias. e a gente vai passando adiante.abs,ricarte

  3. Nossa!Maravilhoso. Eu não participo das rodas de choro e não conhecia esta ‘história-estória’, mas agradeço por poder conhecê-la.Abraços

  4. Luciano Nascimento

    Muito bacana!!

  5. Sérgio Silva

    Ótimo resgate do anedotário do Choro e da vida de Catulo da Paixão Cearense. Poeta que precisa ser mais conhecido, principalmente entre os conterrâneos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s