“ESTUDE PARA AJUDAR SEU POVO”

Esta é a frase que me persegue – no melhor dos sentidos – por todos os lugares por onde vou e em tudo que faço. Ela estava escrita em letras garrafais em todas as salas de aula na escola que estudei lá em Santa Teresa do Paruá, na pré-amazônia maranhense. Não se tratava de uma mera frase de efeito, como é muito comum se ver por aí.

Dizia respeito ao caráter da escola. Uma escola que surgiu em plena época da ditadura militar, mas já em um período de ares de conquista da democracia. Diretas já, Anistia, Constituinte, enfim, um novo horizonte começava a surgir.

Mas eu era ainda muito jovem. Tinha apenas dez anos de idade quando começamos a participar de algumas discussões políticas puxadas pelo padre Diniz, um português baixinho e barrigudo – só não tinha o bigode típico do patrício dono de padaria – obcecado por justiça e trabalho, e por Eliane e Aécio, casal de jovens educadores que, oriundos de São Luís, fincaram pé em Santa Teresa a convite do Padre.

Eles nos faziam descobrir que aquela realidade pobre e sofrida daquele pequeno povoado perdido no meio da, então ainda existente, amazônia maranhense, não era fruto do acaso, nem da vontade de Deus; que a falta de escolas, de saúde, de alimentação, de terras para produção eram fruto sim da negação dos direitos que todos tinham. Portanto, não poderíamos aceitar como normal, parte da paisagem.

A idéia era fazer um trabalho de educação transformadora. A comunidade foi, então, convencida que o primeiro passo seria a construção de uma escola pelos próprios moradores. Mas não seria uma escola qualquer, era preciso ser uma escola com a cara, com a identidade do povo.

E não é que conseguimos construí-la! Da primeira pedra até a última telha. Tudo em regime de mutirão, de união, de ecumenismo. Foram sábados e sábados de trabalho coletivo, com a animação e com a paixão de quem estava construindo um novo rumo, uma nova realidade sustentada na cooperação, na educação, na co-responsabilidade e na conquista do direito.

Foi sem dúvida um dos capítulos mais belos e importantes da minha vida. A Escola, em homenagem à padroeira do lugar, passou a se chamar Colégio Santa Teresa. Era linda. A gente contava os minutos para chegar a hora da aula. Nós tínhamos excelentes professores. Todos selecionados com critérios de competência e compromisso com a educação.

O caráter do ensino era ensinar sobre a vida. O grande valor que aprendemos foi o da mobilização para conquista e garantia dos direitos. Daí que, além das lutas locais por educação e reforma agrária, ainda que muito jovens, participamos ativamente das grandes mobilizações nacionais pela redemocratização do país. Abaixo a ditadura, Anistia aos exilados e presos políticos, Diretas já, Constituinte foram algumas das grandes bandeiras que já empunhávamos em Santa Teresa do Paruá.

Hoje, do lugar que estou, naquilo que faço, em todos os papéis que desempenho não consigo esquecer aquele slogan: “Estude para ajudar seu povo”. Consigo até visualizar a parede com as letras recortadas em cartolina guache coladas acima do quadro negro de frente para os alunos.

Entendo que aquela frase para mim, que também sou fruto da realidade desigual que assola este Maranhão de oligarquias, mandonismos, corrupção, de latifúndio, dos grandes projetos e, por conseguinte, da negação e violação dos Direitos Humanos, tem o mais profundo sentido de ser.

“Estude para ajudar seu povo” passou a significar pra mim, participar conjuntamente de reflexões sobre esta complexa e contraditória realidade em que vivemos, que exige comprometimento e capacidade de mobilização social para efetivação dos Direitos na vida das pessoas. Este é o caminho que tentamos construir, sempre.

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10 Respostas para ““ESTUDE PARA AJUDAR SEU POVO”

  1. Ricarte,Foi bom saber desse dado de seu biografia. Também da forma como esses eventos lhe marcaram a trajetória de vida. Um grande ensinamento. Vá em frente cultivando a forte impressão que essa experiência lhe impregnou na alma.

  2. Olá meu caro Celijon,pois é meu amigo, são as marcas da vida. precisamos saber aprender, sempre, sempre. quando construimos uma trajetória pelo bem a vida deixa sempre belos retratos impregnados na memória e no coração, que iluminarão nossa caminhado por um mundo melhor.abração.

  3. pois é meu amigo, são as marcas da vida. precisamos saber aprender, sempre, sempre. quando construimos uma trajetória pelo bem a vida deixa sempre belos retratos impregnados na memória e no coração, que iluminarão nossa caminhado por um mundo melhor.abração.

  4. Ricarte,Que belo e significativo registro..Sabes que a permanente construção do nosso memorial de vida é um exercicio fundamental para a historicidade da identidade pessoal e coletiva.UM ABRAÇO,Laurinda PInto

  5. Laurinda querida, você e algumas poucas pessoas com essa imensa sensibilidade são capazes de compreender os significados do que fazemos, do que recebemos, de como essas coisas definem a vida da gente. pro bem ou pro mal. felizmente tive essa experiência de vida que me orgulho muito e que me fez vera vida de um jeito mais coletivo e humano. obrigado e um beijo,ricarte

  6. Rico….estou aqui para confirmar tudo que falas sobre a nossa escola de vida. e digo que mais que tudo, eu sou8 orgulhoso por ser teu irmão. Exemplo de caráter e honestidade, quero seguir os teus exemplos.eu te amo, meu irmão.rivanio

  7. Meu querido Irmão Rivanio,teu coração de irmão é suspeito pra falar de mim. e a recíproca é verdadeira. te amo de paixão.ricarte.

  8. JOSÉ MAGALHÃES PEREIRA

    ESTA FRASE É MUITO FORTE PARA QUEM TEM COMO REFERENCIAL O MAIOR BEM DE PESSOAS SIMPLES: “O CARÁTER DE FAMÍLIA”. ALGO PRECIOSO E QUE ONDE QUER QUE ESTEJAMOS CONSIGAMOS EXERCER O QUE PEDE O LEMA, CONCEITO DE POVO COMO HUMANIDADE ACIMA DE QUALQUER COISA… (CAP PM RR JOSÉ MAGALHÃES PEREIRA).

  9. Francisco Magalhães Pereira

    Frase bonita. Mas o mais bonito são as ações ao nosso povo, por muitos de nós que estudamos lá. Parabéns para nós.

    • Entendo, meu caro Francisco Magalhães, que todos nós, em diferentes espaços e papéis, temos dado nossa contribuição nesse processo de comprometimento com o nosso povo. Nosso povo, cujas fronteiras geográficas e identitárias se estendem muito além do nosso chão de nascimento. Às vezes somos chamados à batalhas mais amplas, onde a carência de consciência é maior. Sobre envolvimento, compromisso e contribuição com os mais empobrecidos, uns se dão por missão de vida; outros, por mero senso de oportunidade política, enfim…; alguns até, quando têm oportunidades de oferecer maiores contribuições em espaços mais oficiais e institucionais, optam por seus próprios interesses. Mas é isso, vamos à luta, o chão é grande e a luta é de todos nós, meu irmão. Grande abraço!

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