JURUCA, MEU MESTRE DO CHORO


foto: álbum de família

O meu mestre do Choro não foi Pixinguinha, o mais notável de todos os chorões; também não foi Jacob do Bandolim, o mais preciosista dos mestres do Choro; muito menos Waldir Azevedo, o maior cavaquinhista de todos os tempos. Também, eu não sou nenhum instrumentista de choro. Sequer arranho qualquer instrumento.

Meu mestre do Choro, assim como seu pupilo, também não tocava patavina, como ele gostava de falar. Mas foi com ele que eu aprendi a gostar de Choro. Foi ele quem me apresentou Jacob do Bandolim. Foi com meu mestre do Choro que eu conheci Pixinguinha, Zequinha de Abreu, Dilermando Reis, Saraiva, Noca do Acordeom, Nelson Gonçalves, Luiz Gonzaga, Anísio Silva, Abdias, Marinês, Domingos Pecci e tantos outros mestres brasileiros da música.

Lembro, com enorme saudade e uma pontinha de orgulho, das inúmeras, incontáveis noites que adormeci ao som de “Saxofone, por que choras”, clássico do Ratinho. Nas minhas memórias de menino esse choro ficou imortalizado por Domingos Pecci, um dos saxofonistas preferidos do meu mestre. Outro choro que embalava minhas noites iluminadas à lamparina e candeeiro na pequena Santa Teresa do Paruá, foi “Lágrimas de namorados”, do já saudoso saxopranista Saraiva. O meu mestre adorava. Eu também. E ainda nem sabia.

Para acordar logo cedo, me recordo das notas e melodias de “Não me toques”, música de Zequinha de Abreu, que lá em casa se ouvia ao som do mais cristalino dos bandolins, o de Jacob e seu Conjunto Época de Ouro. Claro, em LP, tocado em radiola Philips automática, à pilha, já que em Santa Teresa, naquela época de ouro, não havia energia elétrica.

Puxava-se o braço do pequeno aparelho para trás para ligá-lo e quando o grande disco começava a rolar no prato da vitrola, colocava-se a pequena agulha de cristal sobre o vinil e iniciava-se a audição dos meus primeiros choros. Ao terminar de tocar a última faixa de um dos lados do LP, a radiolinha desligava automaticamente. Para se ouvir as faixas do lado B virava-se o disco repetia-se a operação.

Assim, lá em casa dormíamos ouvindo alguns dos mais belos choros sem a preocupação de ter que desligar o aparelho. Foi assim, dormindo e acordando, que aprendi a gostar dessa música. O Choro de vinil em radiola de pilha fez parte do meu sono, dos meus sonhos, do meu acordar cotidiano ao lado do meu mestre. Faz parte da minha vida.

Meu mestre se chamava Raimundo Natividade dos Santos. Para alguns, Raimundinho Juruca ou só Juruca. Era o meu querido Pai. Uma figura ímpar na minha vida, em todos os aspectos.
Juruca, além de grande pai, carinhoso, às vezes ríspido, portava-se, hoje posso ver, como um mestre do Choro para mim. Tratava com absoluto zelo seus LP’s.Toda vez que ia ouvi-los era um verdadeiro ritual. Desde a escolha do disco, sua retirada da capa de papel e do plástico que o revestia, até a limpeza cuidadosa com uma espécie de esponja umedecida com um líquido especial, passada repetidas vezes em movimentos circulares sobre as faces do vinil.

Demonstrava conhecimento sobre os instrumentistas e compositores. Fazia comentários sobre eles. Gostava de atribuir títulos de nobreza a alguns. Para Juruca, Jacob era “rei do bandolim”. Dilermando Reis, “o rei do violão”. Saraiva para ele era “o rei do saxoprano”. Waldir Azevedo, “o rei do cavaquinho”. E assim o Juruca, o meu mestre do Choro, ia definindo verdadeiras monarquias instrumentais, que para mim serviram como parâmetros. Ajudaram-me a perceber quem era quem no jogo dos instrumentos. Sempre tentava me convencer, e a todos, que o Choro era a nossa grande música. E eu fui acreditando nisso.

Outro costume curioso do mestre Juruca, acontecia quando aparecia alguém em sua farmácia ou em alguma roda de conversa se dizendo violonista, por exemplo. Para tirar a prova dos nove, Juruca exigia logo que o afoito tocasse “Marcha dos Marinheiros”, de Américo Jacomino, eternizada por Dilermando Reis. Para ele, uma música de difícil execução. Teste cabal para qualquer pretenso violonista. E caso contrário, o camarada estava desmoralizado como instrumentista.

Se o sujeito se dizia sanfoneiro, aí o desafio era outro. A ordem era tocar “Escadaria”, clássico do acordeon, de autoria de Pedro Raimundo. Se o dito instrumentista titubeasse frente aos degraus, pronto. Perdia a moral como acordeonista para Juruca.

E assim eu fui absorvendo essa música, cheia de beleza e de uma saudade inexplicável que eu não sabia do quê. E que agora, sem o meu mestre por perto, se explica. Eu já sei do que é aquela saudade que tem no Choro. Era a falta do meu mestre Juruca que eu já sentia antes mesmo de perdê-lo.

Se ouço “Saxofone, por que choras”, consigo ver seu rosto, cada detalhe, seu riso de dentes perfeitos de satisfação quando ouvia esse belo Choro. É o seu retrato chorístico. Esse som está emoldurado e pendurado em meu coração para sempre.

Daí também meu compromisso com o Choro, enquanto música, enquanto identidade, também como possibilidade de conquista e garantia de direitos. Portanto, a “tarefa” de difundi-lo entre os mais jovens, de partilhar com os mais pobres. Convencer também as outras pessoas que Choro é a nossa grande música. É também uma forma de me manter perto d’Ele, de diminuir a saudade que me faz triste.

Se o meu mestre do Choro fosse vivo, no próximo 8 de setembro completaria 70 anos de idade. A mim restam a saudade, os ensinamentos e o “Chorinho de Herança”.

[texto escrito por Ricarte Almeida Santos para compor um livro sobre a vida de Raimundo Juruca, que seus filhos estão escrevendo e postado aqui por ocasião da passagem do Dia dos Pais]

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6 Respostas para “JURUCA, MEU MESTRE DO CHORO

  1. What a great moment of reading blogs.

  2. Ricarte, a cada palavra que leio é um filme completo que vem em minha cabeça.já são 03 anos sem Jurucão e isso ainda me aperta o peito. E sinto-me mais aliviado quando estou ao lado de vocês, meus irmãos,mãe e sobrinhos. Vocês fazem diminuir a falta que meu pai me faz.Como ele mesmo dizia, eu era o “neném do pai”…acha isso chato era um grande mico, coisa de adolescente, mas, anos últimos 3 anos…quando vai chegando o meu aniversário, como agora, sinto falta de receber atender o telefone tocando e ouvir: “é o neném do pai?…”…Por isso é que os amo tanto e agradeço a Deus por tê-los como irmãos, pois vocês tornam vivas as histórisas do meu (nosso) pai que eu não vivi e as que eu não conhecia. Isso só faz aumentar a admiração, o amor e saudade desse PAI, com todas as letras maiúsculas.O texto está maravilhoso, real, vivo. parabéns!

  3. belo texto, ricarte. grande abraço!

  4. Olha não sou nenhuma especialista para poder comentar o seu texto,mais posso te afirmar que gostei muito.Fiquei encantada em perceber o carinho com que você fala de seu pai.Se todos os filhos pudessem sentir um pouquinho do orgulho que você tem dele, o mundo seria muito diferente e conhecendo um pouco seu pai como conheci acredito que ele deve esta muito feliz com esta homenagem.Parabéns.

  5. Oi Ricarte, muito emocionante, a forma como você narra essa sua iniciação no Choro. De muita sensibilidade seu texto. Como não poderia deixar de ser.Beijo.

  6. obrigado Cris,cê que é sensível e gosta de boa música. eu sou apenas um filho com saudades do pai.cheiro

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