De volta à postagem, falando de música do Maranhão

Depois de duas semanas nos preparativos para a chegada de João Manoel e, ainda, com o computador doméstico combalido, fiquei impossibilitado de alimentar este espaço com “novidades”.

Hoje, portanto, um belo sábado de sol brilhante, dia de Clube do Choro Recebe, antes de ir ao hospital ver o nosso mais novo chorão, vou deixar aqui uma pequena contribuição.

Dia 30 de janeiro de 2007, foi publicado no suplemento Guesa Errante do Jornal Pequeno, um artigo que escrevi sobre a nossa festejada Música Popular do Maranhão. Claro, não é um texto festivo, mas levanta questões, aponta algumas contradições, observa condicionantes políticos, históricos e culturais que determinaram o caráter do nosso fazer musical. Mas não esgota o tema. É apenas uma pequenina contribuição nesse caldeirão fervilhante da nossa produção musical e política. Vamos botar lenha na fogueira.

Nesta postagem, para facilitar a leitura, suprimimos as notas de rodapé. Mantivemos, entretanto, as referências bibliográficas, no sentido de sermos fiéis às idéias e conceitos que alimentaram nossa singela reflexão. Vamos ao texto:

DA MPM AO SOM DO MARÁ, ENQUANTO NÃO CAI O VÉU:
O sebastianismo na música popular do Maranhão

por Ricarte Almeida Santos

A música popular do Maranhão, enquanto fenômeno e bem cultural imaterial, pode suscitar diferentes reflexões. Desde sua natureza, suas origens, os diferentes elementos culturais que participaram de sua construção e dos que ainda participam; da sua relação com as manifestações da cultura popular, naquilo que elas influenciam no seu estilo, na sua estética; das estratégias que os músicos e agentes culturais ligados à produção musical maranhense constroem para produção e divulgação dessa música; até mesmo da sua relação com o estado, enquanto estrutura de poder.

Enfim, temos um amplo espectro de investigação, reflexão e debate, ante esse fenômeno cultural, que desperta tanto interesse e que tem demandado investimentos públicos e privados de significativa monta, que é a música popular no Maranhão.

No entanto, em um simples artigo como este, temos que estabelecer um recorte mais restrito, embora essas diferentes dimensões, se cruzem, se relacionem de maneira complementar.
Tomemos por base duas concepções. Uma de ordem conceitual, e outra de caráter histórico-conceitual. Na primeira, optamos por compreender a música popular do Maranhão, enquanto fenômeno cultural, sustentado em Thompson e seu conceito de cultura como construção de significados, que incorpora as dimensões do simbólico e dos contextos e processos sócio-históricos.

“Os fenômenos culturais (…) devem ser entendidos como formas simbólicas em contextos estruturados. (…) Mas estas formas simbólicas estão também inseridas em contextos e processos sócio-históricos específicos, dentro dos quais, são produzidas, transmitidas e recebidas. (…) (THOMPSON, 2000, p.181).

Em segundo lugar, partindo desse pressuposto conceitual, recorremos a um artigo de Ananias Martins, no qual ele aponta um traço marcante da mentalidade maranhense, como herança lusitana, que é, mesmo na decadência ou no declínio, manter a fé na redenção de um passado glorioso. É o que Martins evoca como característica do sebastianismo.

Esse traço mítico, levantado por Martins, na mentalidade do maranhense, dialoga com a importância, defendida por Alexandre Corrêa em artigo sobre as Políticas do Patrimônio e da Memória de Centro Histórico de São Luís, do papel que os mitos exercem no pensamento dos indivíduos e das sociedades.
“De fato, nas sociedades humanas, e na vida mental dos indivíduos, percebe-se que os conflitos dramatizados pelos mitos simbolizam efetivamente processos profundos do inconsciente social e coletivo” (CORRÊA, 2006, p. 71).

No caso do Maranhão não são poucos os fatos e/ou momentos históricos que apontam um passado glorioso a ser restaurado no futuro, pois as nossas virtudes, belezas e mistérios, acredita-se que, por alguma providência, em algumas hora, se revestirão novamente em glória. (MARTINS, 2000). Esse caráter da mentalidade maranhense, herança do sebastianismo lusitano, determina comportamentos coletivos e individuais da espera por dias melhores, ou do retorno de dias melhores.

“Mas o sebastianismo, no sentido de uma espera mítica pelo redentor e a redenção, não resume toda a questão (…) Há provavelmente resíduo de messianismo, no sentido que uma vez revelado se tornará uma espécie de salvação nacional e, conseqüentemente, de um milenarismo, aqui estabelecendo um novo conceito ou parâmetro que irá reinar por muito tempo – expectativa posta em coisas como o folclore rico e diverso, o porto internacional do Itaqui, o turismo recém promovido etc. Nisso se esvazia o sentido e o propósito da religião como igreja, para tornar a fé um ato civil (…)” (MARTINS, 2000, P.4).

Por outro lado, em uma sociedade de excluídos, dominada historicamente por uma elite oligárquica, coronelesca, patrimonialista, essa herança, como se vê acima, cria as condições “subjetivas concretas” para a espera de um messias, com conseqüências danosas para as condições objetivas das pessoas, ou das comunidades, ou de grupos.

No caso da música popular do Maranhão, como fenômeno cultural, fruto de mediações sociais, carregada de “significados incorporados de formas simbólicas (…)” (THOMPSON, 1995, p.176), vive-se também esse providencialismo.

Essa crença coletiva se sustenta, além do passado glorioso de uma erudição intelectual e cultural – ao ponto de São Luís ter recebido a alcunha de Atenas Brasileira, pela grande quantidade e qualidade dos escritores que produziu –, nas condições objetivas e potenciais concretas no presente. A exemplo do rico e diversificado folclore, das belezas naturais e arquitetônicas e nos casos de maranhenses “bem sucedidos” de reconhecimento nacional, como Alcione, Zeca Baleiro, S. Antônio Vieira, Rita Ribeiro, Flávia Bittencourt, entre outros, que confirmam a crença de que o talento está aqui em terras maranhenses. Só falta o Brasil descobrir.

É comum no Maranhão se ouvir no rádio, na televisão ou em conversas de bar, ou se ler nos jornais, expressões do tipo, “quando o Brasil descobrir os talentos maranhenses” ou ainda, “se a mídia nacional abrisse mais espaço para a MPM, iria descobrir a riqueza da grande música popular maranhense”. Mais cedo ou mais tarde isso ainda vai acontecer. Profetiza-se.

É essa espécie de crença e expectativa popular, involuntária até, que alimenta o meio musical no Maranhão. Ora, quem já teve um passado glorioso como o nosso em várias épocas, em diferentes aspectos da atividade humana, não há por que não acreditar que o destino nos reconduzirá ao apogeu também na música.

Para pontuar, é ufano citar que São Luís foi a quarta capital do Império brasileiro, após Recife, Salvador e Rio de Janeiro. É de má fé não falar que Gonçalves Dias foi o primeiro grande poeta brasileiro. Estas e tantas outras coisas (…) podem tomar conotações mobilísticas, heróicas e santas. (MARTINS, 2000)

Daí esse sentimento coletivo de que a música do Maranhão pode ser a melhor, porque a nossa cultura é muito forte, nosso folclore é o mais rico e diversificado; porque os nossos músicos criados e curtidos nesse universo, no interior dessas melhores qualidades, mistérios sagrados, dessa ambiência arquitetônica lusitana, impregnados também, é claro, de certo sebastianismo, farão a diferença, assim que forem descobertos, como ressalta Martins, assim que cair “um véu que encobre as verdadeiras virtudes, belezas e nobrezas do lugar (…)”.

Isso por um lado pode ser bom para nossa Música, no sentido de que lhe confere uma aura de autenticidade, de um valor forte da cultura popular, resistente, rude, pois o controle social da indústria cultural sobre ela ainda não é total (ADORNO apud COHN, 1978, p.287-288).

De outro modo pode igualmente remeter a movimentos voluntários equivocados, como estratégia de afirmação no mercado fonográfico nacional, a partir da supervalorização dessas características tão específicas de uma região, se em um passado bem distante, gloriosa, hoje um estado periférico sem grande relevância econômica e política.

Daí que Corrêa reivindica uma nova postura técnica, novo suporte científico ante aos bens culturais imateriais, como é o caso da música popular no Maranhão. Fruto de sínteses de diferentes culturas e de processo cultural em curso, inacabado, contínuo, sem uma centralidade determinante (Corrêa, 2006.)

Todavia, o importante é compreender que a música como fenômeno cultural, incorpora uma dinâmica intensa de mediações e interações, de trocas simbólicas, de significados que se reelaboram permanentemente no curso do processo histórico e político e seus diferentes contextos.

Ignorar essa dimensão dos fenômenos e bens culturais, em um estado com a tradição política do Maranhão, pode conduzir a acreditar que a messias, digo, o messias para a música popular já chegou, ou que acabou de se ir e que vai voltar para a restauração da grande música popular maranhense.

Mas, em qualquer desses quadros, a crença messiânica pode reduzi-la à canção de casa grande, na melhor das hipóteses em um canto exótico de um grupo cada vez menor de músicos apaniguados do palácio, para um ainda menor de apreciadores. Fadada a virar quem sabe um cd, como recompensa pelas festas e rodas domésticas animadas com o dinheiro de todos e de todas, público. Longe da perspectiva da construção de uma memória viva, com participação da população, fortalecendo identidades, o diálogo intercultural, determinando ativamente novas políticas culturais inclusivas.

REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor W., HORKHEIMER, Max. A Indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas. In: Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

CORRÊA, Alexandre Fernandes. Teatro das Memórias Sociais e do Patrimônio Cultural: a educação patrimonial em perspectiva. In Os caminhos do patrimônio no Brasil / Organizadores Manoel Ferreira Lima Filho. Márcia Bezerra – Goiânia: Alternativa. 2006.

________. Patrimônios, Museus e Subjetividades. In Ciências Humanas em Revista/Universidade Federal do Maranhão. Centro de Ciências Humanas, São Luís,2004.

COHN, Gabriel(org.). Comunicação e Indústria Cultural. 4 ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978..

MARTINS, Ananias Alves. O Rei Vive – a Brasilidade Regional do Maranhão: um ensaio das sobreposições culturais e a formação da mentalidade local. Mimeo. 2006.

MARANHÃO, Chico. MPM em discussão. Jornal o Estado do Maranhão. Opinião. Gráfica Escolar, São Luís, 2004, p. 5.

THOMPSON, John B. O conceito de cultura. In: Ideologia e cultura moderna. Petrópolis: Vozes, 2000.

SANTOS, Ricarte Almeida, De Zeca Baleiro a Bruno Batista….ainda. bem que eu não ouvi todos os discos. Diário da Manhã, Opinião. São Luís, 2004, p. 4.

[artigo publicado no suplemento Guesa Errante, do Jornal Pequeno, em 30 de janeiro de 2007]

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Uma resposta para “De volta à postagem, falando de música do Maranhão

  1. bom lê-lo de volta, cabra. até daqui a pouco. abração!

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