De Galo Preto a Rabo de Lagartixa: o choro tem cada uma

A própria palavra Choro para designar um gênero musical, para muitos já soa um tanto estranho! Pasmem! Mas ainda existe quem não sabe da existência do primeiro gênero musical genuinamente brasileiro. E só conhece o choro como ato de derramar lágrimas copiosas. Também, com tantos tapinhas na cara, seria exigir muito dessas cabecinhas maltratadas.

É, mas o Choro ou Chorinho, como queiram, além do próprio nome, apresenta uma série de curiosidade e esquisitices, que vai desde o nome (ou apelido) de alguns chorões até os títulos de suas obras, nomes de grupos, de bares onde acontece as melhores rodas de Choro. Isso sem falar em comportamentos, atitudes e manias dos nossos chorões.

Nos anos 70 e 80 ficou famoso no Rio de Janeiro, o Bar “Sovaco de Cobra”, que até virou título de Choro. Outros títulos de Choros, nada convencionais, engrossam a lista de coisas “estranhas” no gênero, do tipo “Jacaré de Saiote”, “Siri com toddy”, “Bolacha Queimada”, a famosa “André de Sapato Novo” ou “Música é que nem filho, a gente faz e depois dá o nome” (de Hermeto Pascoal), ou ainda, “Diabinho Maluco”, do saudoso Jacob do Bandolim.

No campo dos nomes de Chorões, dos mais exóticos podemos lembrar, Sátiro Bilhar, Quincas Laranjeira e Bonfíglio de Oliveira, dos mais antigos. Sem esquecer do cavaquinhista Toco Preto, ou dos nossos Léo Espirro, Zeca Buiú, ou do próprio Pixinguinha.

Tanta excentricidade assim é fruto da enorme criatividade e senso de humor de compositores, instrumentistas e freqüentadores das rodas de Choro e, claro, de uma boa dose de esquisitice mesmo.

Em 22 de julho de 2001, o Chorinhos e Chorões apresentou quatro grupos de Choro que incorporam já nos nomes essas excentricidades. Os modernos GALO PRETO e seu CD Homônimo, o ÁGUA DE MORINGA com o CD “Saracoteando” e o NÓ EM PINGO D’ÁGUA, com um trabalho intitulado “Nó na Garganta”. Digo moderno por se tratar de grupos surgidos após Radamés Gnattali e Camerata Carioca. Grupo que demarca com mais ênfase o caráter camerístico do Choro, dando maior espaço a todos os instrumentistas em suas execuções. Superando a fase de um só músico solista com os demais apenas acompanhando. A partir da Camerata Carioca, todos os instrumentos do grupo ganham arranjos especiais.

O Galo Preto, o Água de Moringa e o Nó em Pingo D’água vêm dessa influência. São grupamentos instrumentais que adicionam novos elementos e informações ao gênero, tornando-o mais rico e sofisticado.

Depois do Galo, do Água e do Nó, vem um grupo que eu “classifico” de pós-moderno no Choro, de nomenclatura não menos exótica: RABO DE LAGARTIXA. Uma turma jovem, de linguagem igualmente nova, com ênfase e predominância no Choro. Para o pesquisador Tárik de Souza, “o Lagartixa mexe o rabo para o lado do pop, mas sem vulgarizações (…) e volta a ser uma maneira de tocar, incorporando os sons da rua (…). Ao incorporar a estética (mais a estática) do presente ele semeia o Choro no novo milênio”. E aí quem sabe, surgindo novos grupos como o RABO DE LAGARTIXA, com uma abordagem mais jovem, mais contemporânea, a nossa juventude (ou parte dela) possa chorar diferente. Não mais de “tapinhas na cara”. É que segundo os médicos, tapinhas na cara, além de violentos, afetam os neurônios.

Salve o Choro! Salve o Galo! Salve o Nó! Salve o Lagartixa! Abaixo a violência e a mediocridade!

Em breve poderemos reapresentar o programa com os quatro grupamentos de nomes curiosos.

[texto publicado no jornal pequeno em julho de 2001, e atualizado para a presente postagem. ]

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