O Choro e a Indústria Cultural: a polêmica de Jacob e o “Rei do disco”

Com o advento do rádio e das gravadoras, possibilitado pelo início do processo de industrialização no Brasil, Pixinguinha começa a dar ênfase ao trabalho de arranjador e orquestrador, através do rádio e do disco.

“No fim dos anos vinte, dois fatos mudariam a velocidade de desenvolvimento da música popular no Brasil trazendo conseqüências imediatas para o choro. O fortalecimento do rádio e o advento das gravações elétricas” (CAZES em artigo Revista Roda de Choro – “As gravações mecânicas”. No 4. 1996).

Desse período a grande novidade introduzida por Pixinguinha que viria a ser determinante para o Choro nos moldes que hoje conhecemos, foi a aproximação do Choro com a percussão. Se atualmente não se pode imaginar um grupamento de Choro sem instrumentos de percussão como pandeiro, timba, surdo ou outros apetrechos rítmicos-percussivos, isso deve-se aos arranjos criados por Pixinguinha, que com suas influências e informações afros, percebeu a riqueza que isso poderia trazer. “Ao que parece o objetivo de Pixinguinha era criar uma música para dança a partir de matrizes afro-brasileiras”(CAZES,1998, p. 71).

Pois seriam esses elementos que contribuiriam como linguagem musical para a assimilação do samba pelas elites intelectual e política de então (VIANA, 1995). Pixinguinha, tanto como músico, nos mais diferentes papéis, quanto como mediador cultural, teve papel fundamental nesse sentido.

No entanto, o surgimento do samba e dos cantores e cantoras do rádio, sucumbe um pouco o Choro. É quando Pixinguinha passa majoritariamente a trabalhar como arranjador de orquestras para gravadoras e rádio. Mas aí levando consigo, para a música que passaria a orientar, todas essas informações, influências e elementos culturais de sua intensa vivência musical. O que passaria também a dialogar com as inovações tecnológicas advindas do aparecimento do rádio e do disco, prenúncio da implantação da Indústria Cultural em terras Brasileiras. Já não é sem motivo que o Choro a partir de então vai gradativamente perdendo espaço ante o apogeu da música cantada.

A partir daí começa a ser implantada no meio musical brasileiro a lógica da indústria cultural. O processo que se dava até então, de interação e mediação dos diferentes elementos culturais na formação da música brasileira, que tinha o Choro como expressão mais sincreticamente espontânea, começa a ganhar uma outra orientação.

“A indústria cultural é a integração deliberada, a partir do alto, de seus consumidores. Ela força a união dos domínios, separados há milênios, da arte superior e da arte inferior. Com prejuízo de ambas. A arte superior se vê frustrada se sua seriedade pela especulação sobre o efeito; a inferior perde, através de sua domesticação civilizadora, o elemento de natureza resistente e rude, que lhe era inerente enquanto o controle social não era total(ADORNO, apud COHN, P.287-288).

Os músicos de Choro, em regra geral, de protagonistas que eram, de executores virtuoses de uma boa música instrumental, passaram a exercer um papel coadjuvante no bojo da emergente industria cultural. Era comum, a partir da década de 30, as emissoras de rádio e gravadoras terem em seu quadro de contratados um conjunto de choro, que era chamado invariavelmente de “Regional”.

“Para uma estação de rádio da época era indispensável o trabalho de um conjunto do tipo “regional”, pois, sendo uma formação que não necessitava de arranjos escritos, tinha a agilidade e o poder de improvisação para tapar os buracos e resolver qualquer parada no que se referisse ao acompanhamento de cantores(CAZES,1998, p. 85).

Ainda assim com o espaço limitado para a música instrumental nesse contexto de implantação da Indústria cultural no Brasil, alguns músicos de Choro se destacam. Pode-se apontar dois deles que, tanto como instrumentistas acompanhantes de grandes cantores – como as gravadoras queriam – quanto como músicos solistas, ocuparam um espaço relevante no dito mercado musical , Jacob do Bandolim e Waldir Azevedo. Estes dois mestres do Choro expressam bem a contradição que o choro passou a experimentar com o advento da chamada indústria cultural.

O primeiro, exímio Bandolinista, compositor refinado, autor de inúmeros clássicos do Choro, criador de um estilo brasileiro para o Bandolim. Preciosista por convicção, Jacob nutria verdadeira desprezo pelo termo “regional”, adotado por emissoras de rádio e gravadoras para designar os grupos de choro. “Para ele a palavra significava um grupo de músicos desleixados, sem estudo, pau-pra-toda-obra das rádios” (DINIZ, 2003, p.35). Jacob, apesar da fama de conservador, foi um dos mais criativos e inventivos músicos brasileiros. Além de ter definido “personalidade própria ao bandolim brasileiro” como afirma CAZES, Jacob do Bandolim, foi dos mais estudiosos pesquisadores sobre as possibilidades do Choro e já nos anos 60, com o LP “Vibrações”, prenunciava o que viria acontecer com o Choro só na década de 80, que é a exploração do caráter camerístico do gênero.

Alguns depoimentos de Jacob, em cartas a amigos, revelam o grau de angústia e decepção com sua não inserção, em vendas dos seus discos, no dito mercado fonográfico :

“(…)O grande público por sua vez ainda não reconheceu isso, dada a sua natural ignorância e o desvio do seu paladar para outros setores artísticos, tais como o canto, o humorismo e as novelas(…). Não vês o Garoto? Faz música para músico e se dá mal. O “Outro” – se referindo a Waldir Azevedo – as faz para o público. Dá-se bem, mas por pouco tempo. O ideal é aliar uma coisa à outra e manter-se num nível de produção satisfatório” ( DO BANDOLIM apud CAZES, 1998, P. 102 -103).

Mas se Jacob do Bandolim, um dos maiores compositores do gênero, instrumentista de grande e apurada técnica, cheio de rigor e exigência no trato com o Choro, não conseguiu fazer dos seus refinados discos, de reconhecida qualidade, sucessos de venda, o mesmo não ocorreu com o cavaquinhista Waldir Azevedo, a quem Jacob elegeu como seu desafeto.

Diferentemente de Jacob, Waldir Azevedo tornou-se cavaquinhista quase que despretenciosamente.

“(…) Waldir Azevedo foi chamado para fazer um teste na Rádio Clube, pois precisavam de um cavaquinhista para integrar o regional de Dilermando Reis. Apesar de ainda não ser propriamente um especialista em cavaquinho(…)ficou treinando durante toda a tarde e a noite, para o teste na manhã seguinte. Foi aprovado sem dificuldades”(CAZES, 1998, p. 105).

Daí em diante Waldir construiu uma carreira paralela e oposta à de Jacob em termos de inserção no chamado mercado da música. Com a saída de Jacob do Bandolim da gravadora Continental, Waldir Azevedo foi convidado para substituí-lo, onde fez uma carreira recheada de sucessos.

“(…) surgia a retumbante melodia de “Brasileirinho” – cuja primeira parte é tocada praticamente em uma corda só – seguido de “Delicado” e “Pedacinho do Céu”. O êxito comercial de Waldir Azevedo foi tanto que no ano de 1951 ganhou o título de “Rei do Disco”, por ter atingido a marca de mais de 400.000 exemplares vendidos – um feito raro para um compositor de choro! A fama fez do carioca um personagem internacional, que correu o mundo com sua linguagem comunicativa.” (DINIZ, 2003, P. 37).

Essa contradição vivenciada pelos chorões, a exemplo do “embate” de Jacob e Waldir Azevedo, revela um dos efeitos da Indústria Cultural no meio chorístico.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todo esse conflito de caráter aparentemente só mercadológico, alimentado pelos interesses de rádios e gravadoras, não revelam por si o debate interno que os músicos e estudiosos travaram e ainda travam no bojo do movimento chorístico, sobre a incorporação ou não das inovações tecnológicas advindas com a implantação da industria cultural no Brasil.

Esse debate tem produzido repercussões decisivas e vital no caráter estilístico do Choro, à medida que isso produz dois discursos e consequentemente a convivência de estilos diferentes de fazer Choro. Um de resistência e fidelidade ao gênero, naquilo que consideram um estilo consagrado, definido, cristalizado, clássico do choro; o outro de abertura ao novo, de perceber que o choro como fenômeno cultural continua produzindo e sendo fruto de mediações, de trocas simbólicas em determinados contextos sociais. Esse processo todo vai se acentuando à medida que o processo tecnológico se intensifica.

A partir dos anos 80, a despeito do pouco espaço na mídia, ou de um espaço residual, o Choro continua interagindo no processo musical brasileiro. Mas esse é um período especial sobre o qual caberia um capítulo “à parte”, posto que a retomada com maior força do Choro nesse período trouxe transformações profundas para o gênero em todos os aspectos.

Assim as inovações tecnológicas no Choro, enquanto fenômeno cultural, desde o seu surgimento até o advento da indústria cultural, produziram efeitos, mudanças e transformações, que garantiram sua existência não só como receptor desse processo, mas também como fornecedor de inovações, técnicas e tecnologias. Que o diga o Música Popular Brasileira.

[trecho de artigo escrito por ocasião do curso de pós-graduação em gestão cultural na Faculdade São Luís]

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