O EXERCÍCIO DA MEDICINA NO BRASIL: ESTRUTURANDO PODER E MISÉRIA.

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Ser médico no Brasil é condição de poder.

Daí, toda a pressão e lobby das “organizações de corpo” contra a vinda de médicos estrangeiros para o Brasil.

Todos e todas sabem da negligência histórica, de décadas, séculos a fio, dos governos com a saúde pública neste país, uma realidade clara e concreta, insuportável.

Faltam postos de saúde, hospitais, mas também faltam médicos, medicina preventiva, enfim, falta uma política pública de saúde, efetivamente.

O quadro de miséria que se abate sobre o nosso povo, e eu falo do Maranhão, faz com que os mais empobrecidos e empobrecidas, principalmente mulheres e crianças, morram à míngua, jogados num quarto pobre, muitas das vezes insalubre de casebres de taipa ou de pau a pique, de palha, de chão batido, sem nem mesmo ter chance de chegar a um hospital; ou de um médico lhe fazer um visita, antecipando-se ao hospital.

Em um quadro como este não é sem motivos, no interior do Maranhão, que o “exercício da medicina”, tenha se transformado numa outra forma – e eu nem diria moderna, diria cruel, vil – de exercício do mandonismo, de “coronelismo”.

Na ausência de políticas públicas de saúde, na carência absoluta de nossa gente, como atestam os indicadores do PENUD/IPEA, ser médico no Maranhão é sinônimo de poder também político.

Não é coincidência o alto número de médicos que são ou que viram prefeitos de uma hora para outra.

E nem assim, nos municípios onde estes atuam, o quadro da saúde é menos ruim. Quase sempre essa situação – médicos prefeitos – anda aliançada com a corrupção e com a negligência com a saúde pública. Prefeitos podres (mas podres mesmo) de ricos e povo desassistido.

Acredito que o debate, aberto com advento do “Mais Médicos”, enseja uma reflexão profunda na escola de medicina, sobre o natureza da formação dos nossos profissionais da saúde, sobretudo, na universidade pública, paga com o suado dinheiro do povo brasileiro, inclusive, dos mais pobres, que, aliás, é quem paga imposto no Brasil, portanto, é quem paga a conta.

Fazer da medicina um mero negócio ou um canal para o mandonismo político nas cidades do interior, parece ter sido a “receita do sucesso” dos profissionais da medicina. É claro que têm exceções. Conheço muitas delas. Falo do geral, do que predomina. A gente não vive pelas exceções!

Ser arrogantes, tratar os pacientes com descaso, receitar sem nem mesmo olhar o rosto dos pacientes, não cumprir os horários nos consultórios, usar dedos de silicone pra registrar presença em falsos plantões, fraudes outras, incontáveis, ao erário público também tem sido práticas muito recorrentes.

Não me lembro de pronunciamento, de campanhas zelosas do CRM contra a corrupção na saúde, contra as distorções médicas, em favor da medicina pública, acessível, enfim… Por onde andavam os “republicanos” CRM’s ?

Precisamos de uma formação médica direcionada para a vida, para o ser humano.

Em um estado como o Maranhão já seria a ‘salvação da lavoura’ de nossa gente. A medicina preventiva, o médico da família já reduziriam em muito as filas nos hospitais, a número de ambulâncias para os maiores centros.

Me parece que a preocupação maior é com o espírito de porco, digo, de corpo e menos com a vida, com a pessoa.

Que faltam hospitais, faltam; que faltam postos de saúde, faltam; que faltam equipamentos, faltam. Mas os médicos são formados não são para hospitais, são para as pessoas.

Com menos corrupção, com mais médicos, os hospitais, os equipamentos seriam uma consequência. O que o governo federal sinaliza não é tudo, está longe do ideal, do que a sociedade precisa, mas pode apontar um caminho em vista de uma política pública de saúde. O quadro da saúde pública e do sistema de saúde, do exercício da medicina, está estrangulado. Algo teria que ser feito.

O”Mais Médicos” ainda parece ser pouco diante do muito que historicamente nos foi e é negado, mas pode ser o ponto de partida para enfrentar uma situação que, sob o ponto de vista da medicina, é endêmica, na medida que é uma doença de natureza da formação; sob o ponto de vista sociológico, é estrutural e estruturante, na medida em que tem servido para a concentração de poder político e riquezas, acentuando, de maneira vil, a miséria e a desigualdade.

Marco César – da escola Luperce-jacobeana – um grande bandolinista em São Luís

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Antes do reinado de Jacob do Bandolim, a soberania desse instrumento no Brasil era de um pernambucano, Luperce Miranda.

Luperce foi o grande nome do Bandolim no Brasil por várias décadas. Já aos 15 anos de idade começou a se destacar como bandolinista.

Só não foi à Paris, nos anos 20, na famosa viagem de Pixinguinha e Os Oito Batutas, porque seu pai o impediu, alegando a pouca idade do, então, adolescente instrumentista.

Depois, Luperce Miranda reinou absoluto no bandolim. Integrou diversos regionais, tocando em gravações e  emissoras de rádio. Nos anos 30 acompanhou artistas como Mário Reis, Carmen Miranda e Francisco Alves.

Nos anos seguintes trabalhou nas rádios Mayrink Veiga e Nacional, até quando voltou para o Recife, onde também desenvolveu importante trabalho, implantando por lá uma escola de grandes bandolinistas.

Suas grandes marcas eram a técnica apurada e  a velocidade impressionante com que tocava; além de um exímio e fértil compositor que era. Seu repertório ainda hoje inspira novos bandolinistas em todo e país.

Só depois é que surge Jacob do Bandolim, que revoluciona o instrumento, dando-lhe um sotaque e até uma formato bem Brasileiros. Em outras palavras, Jacob abrasileirou o bandolim, deu-lhe um imenso e belo repertório, uma linguagem própria.

Jacob do Bandolim afirmou o bandolim definitivamente no Choro, na música brasileira e no seu nome. Emprestou seu nome à história do instrumento no Brasil.

Um dos mais brilhantes, diria eu, discípulos, seguidores e, hoje, um renomado mestre dessa tradição luperce-jacobiana do bandolim brasileiro, estará nesse final de semana na Ilha de São Luís.

Trata-se do grande bandolinista e professor Marco César. Há muito Marco César milita no meio chorístico e musical como grande mestre do bandolim que é. Sem dúvida alguma, um dos mais conceituados e respeitados bandolinistas dentre aqueles que entendem e estudam o instrumento em todo o Brasil; e, até, entre aqueles que só apreciam o instrumento – como este blogueiro-radialista que vos rabisca “estas mal traçadas linhas”, como diriam as cartas de antigamente.

Marco César, além de excelente bandolinista, é professor do Conservatório Pernambucano de Choro da Universidade Federal de Pernambuco; é integrante e fundador do Conjunto Pernambucano de Choro e da Oficina de Cordas de Pernambuco; apresentou-se em todo o  país e no exterior ao lado do multi-artista Antônio Nóbrega e como solista da Orquestra Sinfônica do Recife, dentre tantos momentos de sua rica trajetória.

Como bandolinista e  mestre, reverenciado por todos em Recife, é o grande influenciador das novas gerações do Choro em Pernambuco. Grupos como o “Arabiando”, formado por jovens instrumentistas, dentre outros, levam as digitais desse grande músico.

Então, pra quem ainda não sabia, Marco César toca neste final de semana na Ilha. Acompanhado pelo Regional Tira Teima (Paulo Trabulsi, Solano, Serrinha (ou João Neto), Zeca, Zé Carlos e Léo Capiba), o mais tradicional grupamento de Choro da Ilha, o grande  mestre pernambucano do Choro e do Bandolim dá o ar de seu talento, neste sábado, às 9H da noite, na AABB (Av. dos Holandeses). Encontro de feras, certamente

Imperdível mesmo!

O quê? Marco César, grande bandolinista brasileiro (do Recife) e Regional Tira Teima

Quando? Sábado, 27/07, às 9H da noite

Onde? Na Associação Atlética Banco do Brasil – AABB (Av. do Holandeses – Calhau)

Quanto? não informado

PARA FALAR DO DIA NACIONAL DO CHORO E DO “CHOROGRAFIA DO MARANHÃO”

por Ricarte Almeida Santos[1]

Em todo o país, hoje dia 23 de abril, se comemora o Dia Nacional do Choro. É lei.

São Luís também terá sua deferência especial ao dia de nascimento de Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha. A festa será na AABB, a partir das 19 horas, com um desfile das nossas maiores feras do choro.

Aliás, é oportuno dizer, que já faz alguns anos que a Escola de Música do Maranhão não tem deixado a data passar “impunemente”, algo merecedor de reconhecimento e aplauso.

Antes das iniciativas da EMEM, a jornalista Vanessa Serra foi outra que também empreendeu esforços comemorativos ao Dia Nacional do Choro. Lembro-me de uma vez em que ela nos brindou com a presença do extraordinário clarinetista Paulo Sérgio Santos, figura de proa do cenário “chorístico-instrumental” brasileiro, com quem tive a honra de dividir na UFMA uma mesa de debate sobre o gênero.

Além do Paulo Sérgio, outra presença ilustre na ocasião foi a do seu filho Caio Marcio, extraordinário violonista, hoje integrante do contemporaníssimo grupo Tira Poeira. Os dois, junto com os chorões da Ilha, transformaram o Bar do Léo numa grande e qualificada roda de Choro, para o deleite dos presentes. Bons tempos aqueles de música ao(s) vivo(s) na Cobal do Vinhais!

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Tudo isso, junto com outros acontecimentos chorísticos, como projetos, shows, festivais e rodas de choro, ajudam a contar a história do gênero em terras maranhenses. Mas há muito que essa música se faz presente na terra de Gonçalves Dias.

João Mohana pescou peças de Choro por aqui que datam do século XIX. Imagine o que se fez em termos de produção chorística de lá até aqui. Velhos mestres aí pelas cidades históricas da baixada, do Mearim, do Itapecuru, do Grajaú, no interior da Ilha em mais de 150 anos de história musical. Peças e peças que ficaram no fundo dos baús sem serem reveladas ao público. O próprio Mohana registra os prejuízos de centenas e centenas de partituras perdidas pela ação tempo, pelo ataque dos cupins e pelo desleixo de familiares que ignoravam o valor do que guardavam. Muita coisa ficou irrecuperável mesmo, outras viraram embalagem de sabão.

Atualmente, recebo muitas reclamações de saudosistas do projeto “Clube do Choro Recebe”, reivindicando a volta da iniciativa, que idealizei e desenvolvi em parceria, por quase três anos, no lendário restaurante do Chico Canhoto. A ideia era simples: provocar o encontro do Choro, linguagem instrumental brasileira, com a diversidade da cultura musical do Maranhão. A coisa fertilizou, não só pelo grande público que por lá aparecia lotando as dependências do já pequeno espaço do Canhoto, mas sobretudo pela mexida na cabeça de muitos e dos resultados estéticos que passou a suscitar nas produções musicais posteriores e no próprio mercado da música, que passou, com maior destaque, a abrir espaço para o Choro e para a música instrumental.

Penso que as reivindicações saudosistas têm toda a razão de ser, afinal aqueles saraus eram momentos de prática e vivência artístico-musical de grande deleite. Quando se terminava, às 11 e meia da noite, sempre ficava aquele gostinho de quero mais.

Hoje, felizmente, se têm rodas de choro em vários cantos da Ilha e, embora o “Clube do Choro Recebe” tenha deixado saudades, imagino que precisamos ir adiante. É necessário avançarmos no processo de formação de novas gerações de chorões  e  do registro da memória do Choro no Maranhão.

Nessa perspectiva, idealizei e formulei o projeto “Autobiografia dos Chorões Maranhenses” – que, por sugestão do competente jornalista Zema Ribeiro, convidado por mim para participar do projeto, passou a se chamar “Chorografia do Maranhão” – foi no sentido de um passo adiante, de registrar as histórias dos chorões maranhenses contadas por eles mesmos, através de entrevistas; nesse mesmo sentido, formulei convite ao fotógrafo Rivânio Almeida Santos para o registro fotográfico dos entrevistados, visando, também, constituir um acervo de imagens dos nossos chorões.

Executar um projeto dessa importância requer profissionais de sensibilidade e competência, daí o convite aos dois – ao Zema e ao Rivânio – com quem tenho tido a felicidade de trabalhar.

Coordenar esse projeto para mim e desenvolvê-lo contando com as competências desses dois finos profissionais, é sinal de compromisso com a ética e com um resultado de qualidade e respeito ao Choro e aos chorões do Maranhão.

Todo esse material, depois de entrevistados cerca de 40 chorões maranhenses, comporá um livro com o conjunto  das entrevistas e das imagens captadas, publicação que terá lançamento em São Luís, Brasília e Rio de Janeiro.

O objetivo, além do registro da memória dos nossos chorões,  é subsidiar futuras pesquisas sobre a nossa música instrumental, especialmente sobre o Choro no estado.

Para quem ainda não sabe, as entrevistas do “Chorografia do Maranhão” estão sendo publicadas quinzenalmente, aos domingos,  no Jornal “O Imparcial”, sempre com um tratamento apurado e profundamente respeitoso por parte daquele matutino.

E assim segue o Choro no Maranhão.

 


[1] Ricarte Almeida Santos é sociólogo e radialista, especialista em Gestão Cultural e Mestre em Cultura e Sociedade; é produtor e apresentador, há 22 anos,  do programa Chorinhos e Chorões da Rádio Universidade FM

Meus cartões de feliz Natal

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Meus dois filhotes mais novos, Maria Júlia e João Manoel, vivem aprontando pra cima de mim. É cada uma melhor que a outra. Sejam elas tiradas poéticas, de bom humor, sacadas inteligentes para idade deles – 5 e 4 anos respectivamente – ou mesmo demonstração de carinho e amor.

Com suas tiradas, por vezes, rio, noutras choro, coisas de pai bobo, coruja, chorão.

Mas, convenhamos, tem horas que essas figurinhas derrubam a gente!

Há mais ou nenos 20 dias, num domingo desses, depois do Chorinhos & Chorões, programa que apresento na rádio Universidade FM, fui com Juju (Maria Júlia) ao supermercado fazer as compras do mês.

Ela, como sempre, empolgadíssima nessas horas. É sua oportunidade de garantir seus desejos de consumo. Pega um biscoito aqui, um sabonete acolá, uma escova ali, um shampoo de marca cá, enfim, um verdadeiro festival de consumo. Cabe a mim, naturalmente, abrir um campo de negociação, nem sempre muito tranquilo, em vista de barrar o ímpeto consumista da pirralha.

Nesse dia ela se contentou com uma escova de cabelo, dessas de personagens   de estorinhas infantis.

Ontem, Juju e meus outros três filhos vieram passar o dia comigo. Observei que a escova que havia lhe dado há vários dias  ainda estava do mesmo jeito, ainda no estojo, do jeitinho que eu havia comprado. Estranhei, imaginei que fosse outra escova, mas não falei nada.

Ao final do dia, depois de almoçarmos, de desenhos na televisão, quando estávamos nos preparando pra levá-los pra casa da mãe, Juju me vem com a bendita escova na mão, dizendo: “pai, essa escova é a que você comprou  pra mim naquele dia. Vou deixar ela aqui no seu apartamento, que é pra você olhar pra ela todo dia e nunca se esquecer de mim”! Como se fosse possível!

Já João Manoel, garoto esperto,  trepidante, cheio de energia, fala alto, um tanto agitado o rapazinho, haja fôlego pra acompanhar. De tão parecido comigo chega a ser engraçado. Parece mesmo uma miniatura.

Mas João, aos quatro anos, tem um problema de pronúncia de algumas palavras. Onde tem “c” ou “q” ela pronuncia como se fosse “t”. Casa ela fala “tasa”, coca cola ela diz “tota tola”, Ricarte, “ritarte”, enfim… algo que um dia já até achamos engraçado.

Mas o garoto está progredindo, com esforço dos pais, dos irmãos, das professoras e da  fonoaudióloga da escola, parece que o cara está aprendendo a pronúncia correta. Ontem, dentro do carro, quando vínhamos da casa da vovó,  foi dada a notícia, “pai, João já sabe falar ‘casa’ “. Eu perguntei, “é verdade João?”

Pois não é que é! Eu pedi, “João fala aí “casa” pro papai ouvir”. João arrancou o “c” lá do fundo das amídalas e falou “cccasa”. Foi aquela gritaria, todos aplaudiram a conquista de João.

Aí eu aproveitei e pedi mais uma vez, filho fala agora “coca cola”. João respondeu, “eu não tonsigo!”. Eu retruquei, você consegue sim, filho. Já conseguiu falar “casa”, agora  fala coca cola, você vai conseguir. João humildemente, com fala mansa, me respondeu: “eu só sei falar “Jesus”.

Moral da história, mais maranhense, impossível!

Que o natal seja mesmo a renovação do nascimento do menino Jesus em nossas vidas.

Feliz Natal!

João Manoel: “Não precisa, eu já pensei”

João Manoel também tem das suas. Estava eu passeando com os filhotes, domingo à tarde, início de noite, na pracinha da Litorânea. A praça muito cheia de vendedores de tudo. Artesanato, espetinhos de gato, quinquilharias eletrônicas, brinquedos luminosos, enfim.

João Manoel, meu filho mais novo, um tanto hiperativo que é, quer tudo ao mesmo tempo agora.

Mesmo estando sobre uma moto de brinquedo (que se aluga por lá) queria ao mesmo tempo comprar todos os brinquedos que via.

Meu trabalho era convencê-lo – tarefa das mais difíceis – de que “cada coisa na sua hora”. Mas o carinha invocou-se com um brinquedinho luminoso, desses que vêm da China ou do Paraguai. É tudo muito colorido, barulhento, impossível da criança não despertar a cobiça.

João Manoel, diante de minhas explicações e argumentos, já havia se convencido em querer só um brinquedo, pra ele já uma enorme concessão, diante de tantas tentações possíveis.

Mas, ainda tentei adiar o gasto, preservando o saldo da carteira para futuras despesas da noite, que só estava iniciando, apresentei meu último argumento: “filho vamos entregar a moto, que o tempo já acabou e depois a gente pensa nisso”.

João, com a espontaneidade das crianças me reponde com uma firmeza impressionante: “não precisa, eu já pensei”!

Não me restou outra saída, senão meter mão na carteira e comprar não um, mas dois brinquedos, já que Maria Júlia acabara de chegar na conversa e exigia também o seu!

Mas tivemos uma linda noite de domingo na pracinha ao lado do mar e do amor.184784_186398878061997_100000756577321_374801_3658322_n

Zeca Baleiro, um genial artista, um grande cidadão!

O Cantor e compositor Zeca Baleiro, que ontem participou – e hoje volta a  participar – do show “Milhões de Uns” do amigo Joãozinho Ribeiro,  manifestou-se, em esclarecedora nota, sobre sua possível participação no governo municipal de São Luís como secretário de Cultura.

Vale a pena ler a nota – abaixo – de Zeca e ver a postura de um artista e cidadão, republicano, ciente de  seu papel como produtor cultural, sem fugir ao debate claro e aberto sobre essas questões de políticas culturais no Maranhão, tão caras e corrompidas neste chão de oligarquias e vassalagens culturais, ainda que tenham vozes dissonantes! veja abaixo:

ZECA BALEIRO SE MANIFESTA SOBRE CAMPANHA NAS REDES SOCIAIS

Zeca Baleiro

Este texto é para agradecer a mobilização que foi feita nas redes sociais há cerca de um mês pedindo o meu nome para Secretário Municipal de Cultura de São Luís do Maranhão. Naturalmente fiquei lisonjeado com a “campanha”, uma iniciativa de fãs, entusiastas e amigos, mesmo que não tenha sido feito nenhum convite oficial.Nunca havia passado pela minha cabeça o projeto de assumir um cargo como o de Secretário de Cultura, mas é claro que, uma vez deflagrada a campanha, minha mente sonhadora se perdeu em mil projetos e devaneios. Sonhei festivais, editais, ocupação artística da área histórica, revitalização de fato, oficinas, intercâmbios e troca de conhecimentos com o resto do país. Sempre lutei, à minha maneira e com as armas que tinha, por uma vida cultural proativa, intensa e autossuficiente nas cercanias do Maranhão, estado cuja diversidade cultural e racial ímpar faz dele um dos grandes tesouros do país (ainda que bastante escondido).Mas o cargo de Secretário Municipal de Cultura é um cargo político, e mais que político, burocrático. E eu, por mais que me esforçasse, não me sentiria capaz (não neste momento pelo menos) de desempenhar a função como devida. Sou um artista, e é dessa maneira que sinto que posso ajudar no desenvolvimento cultural do meu lugar de origem. Mas não tenho ilusões. Não se muda o cenário cultural de uma cidade, estado ou país com atitudes paternalistas ou favores de balcão (cultura que aliás sempre imperou no Maranhão), mas sobretudo com uma discussão madura sobre o tema e uma proposta efetiva e plausível de política cultural. Infelizmente o Maranhão – e São Luís a reboque – está ainda na pré-história do debate político sobre cultura, como de vários outros debates (e faço aqui uma exceção honrosa a alguns guerreiros solitários como os amigos Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho).

O que vigora é a “politicagem” mais estéril e infrutífera (frutífera apenas para os bolsos dos beneficiados, que não são poucos) e a briga de interesses tacanhos de grupos políticos e/ou partidários. Ora, a cultura é um bem comum, e deveria estar acima de interesses deste ou daquele. Mas não á assim que acontece, infelizmente.

E assim vai-se levando a carruagem, dando esmolas à nobreza da cultura popular e enriquecendo os cofres de joões-ninguéns articulados e bem relacionados, mas sem nenhum comprometimento com o fazer cultural. Minto, pois eles têm sim um comprometimento com a cultura – a cultura do dinheiro, sujo de preferência, e ganho às custas do suor de poetas, pintores, escritores, músicos, grafiteiros, atores ou simplesmente amantes da arte e da beleza. Enriquecem enquanto morrem à míngua felipes, leonardos, tetés, nivôs e toda a realeza mestiça espalhada (e esquecida) nos guetos de nossa outrora “Ilha Rebelde”.

Pois é justamente o que falta à nossa cidade: rebeldia. Rebeldia de verdade, visceral, guerreira, suicida quem sabe. Aprender a não bater continência aos absurdos e desmandos de governantes, sejam quais forem. Aprender que fazer cultura é muito mais que administrar orçamentos de Carnaval e de São João, prestigiando grupos não por talento ou mérito, mas por retribuição a sei lá que “tenebrosas transações”.

Há muitas pessoas capazes em São Luís – artistas ou não – para ocupar o cargo de Secretário de Cultura. Espero que o prefeito eleito tenha a sabedoria de escolher uma pessoa honesta e realmente comprometida com os rumos culturais da cidade. Nenhum governo, em nenhuma esfera, pode ser considerado “vitorioso” se não se basear no tripé básico Saúde + Educação + Cultura. Desejo sorte a ele e à cidade durante seu mandato.

E se por acaso acontecer de um dia eu ser de fato convidado para cargo semelhante, espero estar à altura de merecê-lo, e ser capaz de fazer metade do que sonho como projeto cultural ideal para minha cidade, cidade que amo, apesar de todos os pesares de toda relação de amor, que pode (e deve) ser crítica, por que não? Isso não torna o meu amor menor. Nem minha revolta. Sim, revolta contra as almas mesquinhas que querem apequenar o que nasceu para ser grande e belo e altivo, como a nossa Ilha de Upaon-Açu, grande desde o nome até o seu destino.

26 de novembro

Zeca Baleiro
www.alicenopaisdasmaracutaias.blog-se.com.br

PARA O CHORO DO MARANHÃO ESPALHAR AS BRASAS MUNDO AFORA!

foto da capa

Caderno de Partituras “Choros Maranhenses”

Por Ricarte Almeida Santos[1]

Há muito que o Choro faz parte da cultura musical do Maranhão. Embora este gênero musical – o primeiro surgido em terras brasileiras, fruto da mistura dos diferentes elementos culturais constituidores da formação do povo brasileiro – tenha nascido, segundo os registros históricos, no Rio de Janeiro, ele carrega consigo um apelo identitário nacional.

Em outras palavras, o Choro expressa um sentimento de identidade, de uma linguagem musical brasileira, uma espécie de idioma instrumental, nessa ampla pluralidade que é esse gigante território de sonoridades e culturas.

De marginal, como fora tratado quando surgiu, desenvolvido por músicos negros, populares, ainda na última metade do século XIX, quando prevalecia o domínio das teorias raciais no país, portanto, de forte carga racista, o Choro  só a partir da segunda década do século XX, é que passa a ser aceito pelos intelectuais e pela sociedade como uma música a ser respeitada e reverenciada, até se tornar, aos poucos, um traço importante na formação de nossa identidade cultural. Mas até aí foi, e tem sido de lá para cá, uma saga hercúlea de afirmação deste gênero musical, tão rico quanto simbólico de nossa identidade musical.

São barreiras que se erguem tanto pelo preconceito, muito mais forte no princípio, quanto pela imposição da lógica de mercado. Esta, mais recente, necessita de produtos culturais de apelo fácil, em vista de ampliar seus lucros em grande velocidade e escala.

O Choro, com toda a sua riqueza, pluralidade e complexidade, não se presta a isso. Daí sua grande dificuldade de sobreviver frente a estratégias mercadológicas vorazes e sequiosas do lucro fácil. Mas ainda assim, o gênero Choro se difunde em todo o Brasil, como algo que faz parte de uma identidade nacional.

Em recente trabalho, intitulado Princípios do Choro, que mais tarde resultou na coletânea Choro Carioca – Música do Brasil, os músicos Maurício Carrilho, Anna Paes e Luciana Rabello, desenvolveram uma pesquisa em todo o país mapeando e registrando em disco a produção chorística do século XIX. Trata-se de um trabalho rico e consistente, que confirma a beleza e a força deste gênero em todas as regiões do Brasil, já naqueles idos tempos.

Segundo Luciana Rabello, “constata-se assim o quanto o choro influenciou não apenas a música carioca, mas também diversos outros gêneros da música brasileira, como o frevo, o baião e o xote nordestinos, por exemplo. Assim como recebeu contribuições importantes da cultura de cada região brasileira, criando assim sotaques diversos”. E o Maranhão integra essa pesquisa com diversas peças chorísticas de refinada elaboração.

Constatação que o pe. João Mohana já fizera, em A Grande Música do Maranhão (1995), quando registrou e catalogou a existência de diversas  composições chorísticas da transição do século XIX para o XX. Em Inventário do Acervo João Mohana (1997), há um vasto acervo de partituras de choros maranhenses, dentre outros gêneros, daqueles primórdios.

De modo semelhante, este Caderno de Partituras “Choros Maranhenses”, iniciativa desenvolvida pelo professor, músico e flautista Zezé Alves, com patrocínio do Banco do Nordeste do Brasil, é um registro de parte da produção chorística maranhense dos anos 1950 (do século XX) para cá.

Nesse intervalo de seis décadas de produção musical, certamente muito se fez em termos de Choro no Maranhão, com consequências balizares para a música maranhense. São diversas gerações de compositores, músicos e instrumentistas que, nesse período, com maior, menor ou nenhuma visibilidade, conseguiram dar continuidade, em terras maranhenses, à prática do Choro, enquanto linguagem musical.

Nomes como José Maria Fontoura, João Carlos de Nazareth, Francisco Solano, Raimundo Luís, Nuna Gomes, José Hemetério, Marcelo  Moreira, Henrique Guimarães, Serra de Almeida, Raimundo Amaral, Francisco de Assis Carvalho da Silva (o Six), Robertinho Chinês, Luiz Júnior, Chico Nô, Domingos Santos, Juca do Cavaco, Josias Sobrinho, Cesar Teixeira, Chico Maranhão, Omar  Cutrim, Zezé Alves, Ubiratan Sousa, Chico Saldanha, dentre outros, integram esse rico Caderno de partituras e ajudam a enriquecer nossa cultura musical.

Esse processo todo, com essas mais diferentes contribuições, evidentemente, tem sido um contributo essencial em toda a produção musical maranhense, oferecendo tanto a base instrumental chorística para a nossa prática instrumental; garantindo elementos estruturantes da formação dos nossos músicos e instrumentistas; como também influenciando esteticamente os nossos compositores, de tal modo que, tanto os chorões assumidos, quanto grande parte dos nossos melhores compositores populares têm em suas obras forte influência do Choro.

É claro que essa iniciativa se reveste de uma importância vital não só para o Choro, mas para toda a nossa cultura musical. Esse Caderno com 37 peças, produzidas dos anos 50 até os dias de hoje, evidentemente, não é tudo. É apenas o começo e mostra a vastidão do que ainda se tem a garimpar em termos de produção do Choro por aqui nas mais diferentes épocas.

Mas identificar, catalogar e registrar peças chorísticas de compositores maranhenses, além de revelar um acervo rico e identitário de nossa produção musical mais contemporânea e seus criadores é, igualmente, a possibilidade de um material agora disponível, a ser explorado pelas atuais e futuras gerações de chorões, instrumentistas, estudiosos e aficionados por boa música brasileira e maranhense.

É, seguramente, algo que transmite de geração em geração, os valores, símbolos e significados do nosso fazer musical e cultural no tempo e na história. Tal perspectiva servirá como fio condutor, veio de afirmação e atualização dessa linguagem musical que é o Choro em território maranhense, bem como poderá oferecer, na dimensão nacional, novos elementos da rítmica e do sotaque musical maranhense, no âmbito da diversidade que é o Choro em todo o Brasil, tornando-o cada vez mais rico e plural.

Este  Caderno de Partituras “Choros Maranhenses”, na verdade, é a retomada com maior volume, em um novo contexto, de uma antiga tentativa, ainda nos anos 90, de registro fonográfico de Choros de compositores maranhenses através do grupo Instrumental Pixinguinha e do programa Chorinhos e Chorões, da rádio Universidade FM. Iniciativa que, na época, esbarrou nas inúmeras dificuldades institucionais e políticas, sobretudo, na absoluta inexistência de políticas públicas de fomento à produção, registro e difusão musical por estas plagas.

Só posteriormente, com a colaboração do professor Marcelo Moreira e de outros integrantes do grupo Instrumental Pixinguinha, que haviam recuperado um conjunto de peças chorísticas de autores maranhenses e a inauguração do estúdio da Escola de Música do Maranhão Lilah Lisboa, foi possível a gravação do cd Choros Maranhenses, do citado instrumental.

Trata-se de um material de qualidade técnica e musical de altíssimo nível e revestido de um valor simbólico e cultural de extraordinário significado. Choros Maranhenses, o cd, além de ser o primeiro disco de Choro no Maranhão, revela sonoramente parte de um grande e rico acervo chorístico, da produção de mestres até então desconhecidos do grande público.

Por outro lado, foi algo instigante e provocador de um novo desafio: este Caderno de Partituras “Choros Maranhenses”, que assume tanto uma perspectiva de continuidade do que lhe antecedeu em termos de registro e difusão do choro, como, igualmente, oferece amplas perspectivas. Possibilidades que podem vir a ser da edição de um novo caderno, de novas pesquisas acerca do Choro no Maranhão, de novos registros fonográficos, documentários, enfim.

Com este Caderno de Partituras “Choros Maranhenses” Zezé Alves bota mais lenha na fogueira do Choro e da nossa diversidade cultural e espalha o fogaréu do Choro Maranhense mundo afora.

O desafio agora é novo, é nosso, é de todos e todas!

Obrigado, mestre Zezé!


[1] Ricarte Almeida Santos é sociólogo e radialista, produtor e apresentador do programa Chorinhos e Chorões da Rádio Universidade FM.